Feco Hamburger e o tempo longo, por Tadeu Chiarelli

28 de October de 2020 • Crítica, ensaio, Feco Hamburger

Noites em Claro, exposição de fotografias de Feco Hamburger na Pinacoteca do Estado

Tadeu Chiarelli

Em 2004, na individual que apresentou na Pinacoteca do Estado, intitulada “Noites em claro”, Feco Hamburger mostrou uma série de fotografias em que a questão central era o “tempo longo” dos astros celestiais, captados por meio de tomadas de longa exposição. Outra questão primordial nas fotos então exibidas – e que tanto surpreendeu e encantou o artista – foi a presença de uma luz misteriosa nas fotos, muito embora todas tivessem sido realizadas durante a noite. Segue o testemunho de Hamburger sobre essa experiência:

“Movido pela vontade de registrar a órbita das estrelas, apontei a câmera para o vale e esperei, junto à câmera aberta, por 35 minutos. Revelado o filme, qual não foi minha surpresa: o céu estava azul, o vale estava verde, e a flor da primavera coloria o plano. O tempo de exposição não foi suficiente para registrar as estrelas da maneira que eu esperava. Mas minha atenção estava totalmente voltada para aquele aparente mistério: como era possível a escuridão da noite se transformar naquela fotografia? (…) A fotografia de longa exposição permite o acúmulo da luz existente, mas não visível aos nossos olhos, em um único fotograma, imprimindo na película o registro do tempo. Diferentemente de nosso olhar, que registra senão instantâneos. E a relação entre a luz no escuro o movimento e o tempo, passou a ser o foco de minha abordagem…”[1]

Feco Hamburger, série Noites em Claro

Naquelas fotos expostas em 2004 ficava patente o quanto o encantamento dessa nova descoberta ainda não alcançara a condição de norte de sua busca, ou dos encontros do artista com o seu fazer. Ali estavam fotos de vales, aeroportos, a curva de uma estrada, a paisagem urbana vista de uma janela… Evidentemente as luzes celestes estavam lá, assim como toda a misteriosa claridade da noite fotográfica (sim, esse mistério que encantou Hamburger é dado pelo meio fotográfico, não pelo referente). No entanto, o caráter, por assim dizer, pedestre da maioria dos locais escolhidos para servirem de cenário das fotos, misturava-se à gravidade do tempo longo dos corpos celestiais captados. Uma mistura com dividendos estéticos muito estimulantes.

Já no conjunto de fotos que Hamburger agora oferece à visitação pública no Centro da Cultura Judaica, o dado circunstancial das cenas escolhidas para as fotos mostradas em 2004 dá lugar a uma outra situação. Ao invés da vista da janela de um apartamento anônimo da metrópole, ou dos reflexos a piscina de uma casa, o artista apresenta imagens captadas nos desertos de Israel e da Jordânia. Por mais circunstancial que possa ser uma visita a esses lugares, eles, em si mesmos, nada possuem de transitório. Pelo contrário.

Ampulheta II, (série Sobre a permanência) 2009, 80x80cm; Fotografia, impressāo jato de tinta sobre papel de algodāo

A dimensão exorbitante de um deserto cria no observador uma sensação avassaladora e de potência tão definitiva que, no âmbito da estética, só poderia ser traduzida pelo conceito de “sublime”. Além do belo, muito além do pitoresco, a busca do sublime na arte foi muitas vezes tentada, mas poucas vezes alcançada. Turner, na pintura, sem dúvida é um exemplo notável. Embora tente, não consigo encontrar uma contrapartida no universo fotográfico, muito embora vários tenham tentado no exterior (Edward Weston), e no Brasil (Marc Ferrez).

Em algumas dessas novas fotografias de Hamburger, à imensidão imutável, sem tempo, do deserto, o artista conecta o percurso da luz de um automóvel que passa. O “tempo longo” do deserto (o deserto se transforma, mas de maneira praticamente imperceptível para nós) é confrontado com o tempo breve, o fluxo veloz de uma luz que passa ao longe. No entanto, essa luz do automóvel só é passível de ser fixada na imagem pelo tempo longo de exposição da câmera.

Notem o embaralhamento poético das fotos de Hambuger: em um lugar onde o tempo parece não existir, ela capta a velocidade (no tempo e no espaço) por meio de um procedimento que usa a extensão do tempo sempre célere da fotografia com o intuito de constituir sua proposta visual. Ou seja: o artista manipula o meio para a construção de um discurso ficcional sobre a transitoriedade do imutável ou, em última instância, sobre o homem e a impossibilidade de eternizar-se assim como o deserto é (ou parece ser) eterno. Aqui temos a fotografia partindo do referente, mas, por meio da manipulação do aparato, indo além dele para alcançar uma dimensão alegórica insuspeita num primeiro olhar.

Em outras fotografias da série, o artista contrapõe à aparente imobilidade do deserto, o ritmo veloz dos astros celestiais (fotos que estabelecem relações quase diretas com aquelas mostradas em 2004). Aqui a estratégia de manipulação da câmara, transformando o tempo ínfimo de abertura do diafragma em tempo estendido, capaz de captar o caminhar das estrelas, é utilizada para conferir ritmo (movimento, tempo) à composição. Esse ritmo, essa velocidade de fato mentirosa (mentirosa porque, sem o auxílio do aparato fotográfico não conseguimos captá-la), opõe o caráter estático do deserto da Jordânia ou de Israel (e aqui o que menos importa é saber a identidade do referente) à fictícia (aos nossos olhos) celeridade das estrelas.

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Ampulheta III, Jato de tinta sobre papel de algodão, 80 x 80 cm

Não é comum, sobretudo na fotografia contemporânea internacional, o uso de expedientes tão tradicionais quanto a exposição longa, para a produção de imagens que tenham como objetivo serem contempladas fora da voracidade dos meios de comunicação. Nos circuitos em que a fotografia é usada como meio artístico hoje em dia prevalece quase sempre a imagem direta, propositadamente destituída de qualquer índice “autoral”, muito embora saibamos todos o quanto a questão autoral ainda joga um papel fundamental no circuito internacional de arte.

Aqui no Brasil também são raros os artistas que fazem uso da longa exposição. Ainda presos à necessidade da fotografia não escapar do referente (a questão da “realidade nacional” persiste como questão para muitos fotógrafos), ou então ligados à experimentação com os meios digitais, a estratégia usada por Hamburger também é difícil de ser percebida na produção de seus colegas locais.

Essa singularidade da produção de Feco Hamburger, que insiste em usar uma estratégia tradicional de manipulação do aparato fotográfico durante o processo de captação das imagens, não o retira do debate contemporâneo da produção artística que se manifesta por meio da fotografia. Afinal, muito do interesse da fotografia “pós-fotográfica”, ou digital, é a sua capacidade de fazer aflorar de vez o caráter ficcional da imagem, transformando-a em texto em que o referente – quando persiste – passa a ser uma mera sombra, ou um pretexto para a constituição de universos imagéticos propensos a exprimirem inquietações que transcendam os limites da fotografia “direta” e mesmo a expressividade da corrente “humanista” da fotografia do século passado. As fotos de Hamburger vêm provar que é possível manter uma atitude contemporânea frente ao debate artístico sem, necessariamente, valer-se das novas tecnologias de produção de imagens. O que seria uma mera curiosidade, se o artista nada tivesse a acrescentar a esse debate. O que não é o caso de Hamburger cujas fotos têm muito a nos dizer sobre a possibilidade de transcendência na arte de hoje.

[1] – Feco Hamburger. Sem título in MOURA, Diógenes (curador). Noites em Claro: Feco Hamburger. São Paulo: Pinacoteca do Estado, 2004, s.pág. (catálogo).


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