Cerâmicas de Paula Juchem, por Livia Debbané

17 de September de 2021 • Crítica, ensaio, Paula Juchem, Sem categoria

Paula Juchem, Polvo, 2020, Cerâmica 12x 23 cm

Livia Debbané

os cacos da vida, colados, formam uma estranha xícara
sem uso
ela nos espia do aparador
poema Cerâmica, de Carlos Drummond de Andrade

A cerâmica é um ofício de regras incontestes, pois seu êxito depende da transformação da matéria por fenômenos químicos, num equilíbrio fino entre os processos. A formação de um ceramista é longa, pressupõe repetição e persistência.

Paula Juchem não se considera ceramista. Trabalhava como ilustradora em Milão quando, em 2007, participou de um workshop em Ravenna, referência da produção cerâmica na Itália. Foi a primeira vez que transportou seus desenhos para a argila. O campo que então se abriu a capturou de imediato.

Desde aquele primeiro contato, Paula explora limites à medida que avança no aprendizado. O caráter destemido de sua atitude reflete a liberdade que experimenta no papel. Pois desenhar, atividade original de Paula, é deixar fluir a conexão entre sinapses e movimento das mãos. Razão e execução influenciam-se mutuamente, sem hierarquia. Ela quer conquistar na cerâmica espaço semelhante, no qual é possível adicionar, apagar, consertar, dar pequenos truques, ou simplesmente recomeçar.

Paula Juchem, Abre-alas, 2020, Cerâmica, 62x 14 cm

O gesto que imprime forma no plano bidimensional torna-se mais complexo ao adentrar a tridimensionalidade. Seu primeiro golpe acontece logo que as peças saem do torno do oleiro, úmidas e moldáveis. O vaso, então simétrico, é investido de depressões, o que o afasta de arquétipos. Paula pede ao artesão que os instrumentos sejam deixados sujos na troca entre diferentes compostos de terra; assim, o trabalho anterior contamina o próximo. Essa mistura de matérias é pouco habitual.

A ornamentação começa com o aplique de relevos, que determinam as áreas nas quais aparecerão as cores. Esses volumes, grudados à superfície como plantas parasitas, resolvem ser mais abundantes no topo dos vasos – o que não é recomendável, pois o peso na borda risca rachar a peça na secagem ao ar livre, ou estourá-la no cozimento em forno elétrico. Os fragmentos desventurados são transformados em poeira e misturados aos esmaltes, a criar mais uma camada de textura. Depois da segunda queima, que fixa a tintura vítrea, a cerâmica pode ser considerada pronta. Mas ainda recebe decalques serigrafados e uma nova queima. O flerte com o excesso, na sobreposição de massa, tinta, cores e técnicas, é constante e tende a se intensificar na obra de Paula Juchem.

Paula Juchem, Doce, 20208 , Cerâmica, 57 x 17cm

O que singulariza uma produção cerâmica é o embate entre norma e intenção. Em outras palavras, a construção da linguagem se faz nos métodos heterodoxos desenvolvidos por cada autor. Agrada a Paula criar os seus no domínio do que se considera impróprio. O resultado, muitas vezes, não suporta a irreverência. Há erros e perdas no processo.

Seria forçoso traçar a linhagem dessas cerâmicas ou relacioná-las a outra manifestação do fazer milenar de recipientes utilitários, ritualísticos e simbólicos. Paula Juchem não se sentiria confortável em inserir-se nesta densa tradição. Ao lançar mão do repertório de traços e colorido que ela amadurece há anos, e que portanto é só seu, Paula apenas responde o que o entusiasmo das descobertas lhe sugere.

Paula Juchem, Preto, 2020, Escultura em cerâmica, 20 x 24 cm diam.

 


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