A Noite dos Tempos, por Diógenes Moura

21 de February de 2020 • Crítica, ensaio, Exposições, Feco Hamburger

Fotografia da série Noites em Claro, de Feco Hamburger, em mostra na Pinacoteca do Estado, em São Paulo

Diógenes Moura

A ciência na busca de uma ação precisa na fotografia de Feco Hamburger é a de virar a noite pelo avesso, num desafio “irracional” de aproximar-se da natureza do tempo e, com isso, juntá-la à natureza do homem, para falar de um sistema comum aos dois, através de imagens noturnas de longa exposição. A partir desse sentido ele traz para fora do diafragma o “dia” que lá dentro a luz invisível a olhos nus revela, fotograma por fotograma. O resultado são imagens com intensa poesia, vindas de um mundo em silêncio; vindas das fases da lua que invocam noites “de sol” em paisagens bucólicas; vindas de uma geografia que recorta sistemas impensáveis; vindas de tensas metáforas em seus riscos de neon que tanto percebem a velocidade da imagem buscando a velocidade da luz, no meio da cidade adormecida.

Da série Noites em Claro (Sem título, Jato de tinta sobre papel de algodão, 60 x 60cm e 100 x 100cm)

Minutos, horas, noites a fio e o fotógrafo ali, diante de um nada escuro-claro que no início nem ele mesmo sabia qual seria o resultado. Experiência de cientista diante do enxame que a física é capaz de produzir no tempo-espaço, eis então que surgiram os primeiros resultados entre o corpo em movimento da terra e a alma da noite, como se o mistério estivesse apenas começando. Uma câmera parada e a noite em movimento: na primeira seqüência entre todas, um tríptico mostra a copa de palmeiras imperiais possuídas por uma construção imagética que desenha um tempo passado, numa visão que lembra a atmosfera de algumas fotografias realizadas no século XIX, fazendo com que essa série ganhe uma identidade tão serena que ultrapassa a linha do tempo.

Mas as fotografias de Feco Hamburger exploram o mimetismo do presente. Enquadra os delicados grafismos das estrelas num firmamento onde riscos e raios atestam que no universo “ninguém” dorme. Transforma situações; inverte a arquitetura; imprime uma abrangência de cores tão independente quanto sutil; abre janelas; cria expectativas para mostrar que, tanto no campo quanto na cidade, uma constelação se revela com a mesma grandeza e simplicidade, para mais uma vez anunciar aos homens sua presença tão próxima e tão desconhecida.

Quando seus lotes quadrados percebem a redoma do visível, na série feita por trás da janela de um avião e deslizando a partir de um sépia praticamente emotivo, o fotógrafo leva sua intenção ainda mais para o campo do simbólico: voa para o noturno da noite tentando aproximar-se daquele “outro” firmamento, de um lugar comum entre o seu estado de existência e a existência das suas tão belas e significativas imagens, eloqüentes, corajosas,  vindas da distância e da aproximação que dá vida às longas noites dos tempos.

 


Veja também