Um corpo na Amazônia: o tempo de Luciana Magno

14 de September de 2019 • Crítica, ensaio, Feiras, Luciana Magno

Luciana Magno, Sem título (da Série Orgânicos), 2014, Pigmento sobre papel de algodão, 80 x 120 cm

Por Ubiratan Muarrek *

Se é verdade que, na arte, o tempo está sempre à espreita, podemos dizer que chegou a plenitude da hora do trabalho de Luciana Magno.

A Amazônia arde, o Brasil e o mundo derretem-se em conflitos, o clima entra em estado de selvageria e o movimento adverso global é sentido na pele por vastos segmentos de populações.

A geografia, a natureza, a cultura e o corpo, elementos centrais da obra dessa jovem artista paraense, retratam e refletem um estado de coisas que, partindo do elemento local – a floresta -, amplifica-se para as audiências – e consciências – de todo o planeta.

Luciana Magno, Sem título (da Série Orgânicos), 2014, Pigmento sobre papel de algodão, 80 x 120 cm

Seria impreciso catalogar como documental o trabalho dessa artista, que se mimetiza ao locus por excelência do conflito global; taxa-lo de oportunista seria infame (mas não surpreendente, na Era da Infâmia populista neopentecostal).

Pois Luciana simplesmente é o que vem registrando em Orgânicos, série de performances filmadas e fotografadas por ela mesma, há mais de dez anos.

(Saiba mais sobre o trabalho de Luciana Magno aqui)

A Amazônia – como seu corpo – é seu habitat; não é o tema de uma obra: é a própria obra. Por que, na  poética e linguagem da artista, “as coisas conjugam-se de maneira integrada, manifestam-se no acontecimento e propiciam a experiência despontar enquanto vivência,para materializar-se na forma de arte”, como define o acadêmico e curador Orlando Maneschy.

No entanto, é inegável que, ao chamar a atenção para si, Luciana chama a atenção para o Outro – e seu entorno.

Como as comunidades autóctones e indígenas, cujos rituais e simbologia são incorporados nas poses e gestos da artista.

Como a devastação provocada por um desenvolvimento que destrói sempre, antes de uma reconstrução que jamais chega.

Como as mulheres, como ela, que submetem seus corpos a olhares e ambientes sexistas e inóspitos (como a rodovia Transamazônica), carregados de riscos e dor.

Luciana Magno, Sem título (da Série Orgânicos), 2014, Pigmento sobre papel de algodão, 80 x 120 cm

Não se trata de um lamento, porém, o trabalho de Luciana. Antes, temos um olhar alimentado pela crítica histórica, política e cultural.

Nas imagens, a suposta fragilidade ganha força; a pungência se torna epifania; o alerta transfigura-se em ação.

Ao subir nua numa pedra em Jericoacoara, no litoral do Ceará (o primeiro local avistado pelo conquistador  holandês), os ventos que balançam os longos cabelos de Luciana anunciam transformação.

Ao imiscuir-se numa madeireira ilegal na Floresta Amazônica, e receber um João de Barro em seus cabelos, como um ninho, enxergamos, além de coragem, que há algo em gestação.

Luciana Magno não representa apenas a potência renovada da novíssima geração da arte brasileira.

Representa igualmente a esperança, que no seu caso não é fruto apenas da fé, mas do enfrentamento direto, estético e político junto aos responsáveis por um mundo submerso em convulsão.

Luciana Magno Transamazônica – Altamira, 2014 Vídeo 1′ 11” (clique para abrir)

 

* Ubiratan Muarrek é jornalista e escritor.

 

Leia também:

Luciana Magno, um corpo movente na Amazônia, por Orlando Maneschy

 


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