Pequenos Vestígios de Melancolia, na Funarte, em São Paulo

23 de August de 2019 • Andrey Zignnatto, Crítica, ensaio, Daniel Jablonski, Exposições, Kitty Paranaguá, Pablo Ferretti, Renata Pelegrini

Andrey Zignnatto, Sem título (da Série Empilhamento), 2016, Tijolo baiano cerâmico amassado e empilhado sobre carrinho de mão, 70 x 55 x 130 cm

Por Cadu Gonçalves

Nos deparamos ao longo da história da arte com imagens que, de alguma maneira, perpassam os nossos sentidos e muitas vezes não conseguimos descrever. Como as imagens noturnas de seres solitários em bares e cafés de Edward Hopper ou os olhares perdidos e longínquos presentes em pinturas de Lucian Freud; imagens de paisagens melancólicas, resíduos ou ruínas, espaços deixados por uma ocupação recente ou distante cronologicamente, nos colocam como um narrador sem palavras do que aconteceu ali.

O recorte de Pequenos Vestígios de Melancolia, coletiva que ocupa as paredes da Funarte, em São Paulo,  compreende o trabalho de seis artistas, cujas obras de certo modo se valem de experiências residuais, seja na observação, seja na matéria. E esses vestígios, de alguma maneira, se mesclam ao entorno deste prédio, ao interior desta sala, que passam por um lento processo de abandono, um lugar em que as celebrações são também carregadas pelo peso da incerteza e da dúvida de seu prosseguimento.

Daniel Jablonski, Pergunte a seus vizinhos [São Paulo], 2016, Pigmento sobre papel de algodão, 66,5 x 100 cm

Jordi Burch, Sem título #1 (da Série Furo), 2017, Pigmento sobre papel de algodão, 52 x 80 cm

É possível nos enxergarmos nos espaços silenciosos de Renata Pelegrini ou estarmos envoltos à névoa de Pablo Ferreti. Na incerteza dos lugares capturados por Jordi Burch ou na paisagem deserta e atordoada de Kitty Paranaguá. Talvez sejamos nós os responsáveis pelo término do que a obra de Andrey Zignnatto começou e também os cúmplices da guerra que o artista traz de lembrança material. Na tentativa de orquestrar a maré, talvez sejamos o próprio Daniel Jablonski.

De quem é essa casa?
De quem é a noite que não deixa a luz aqui entrar?
Me diga quem é o dono dessa casa?
Não é minha.
Sonhei com outra, mais doce, mais clara com a vista dos lagos que barcos pintados atravessam;
Esta casa é estranha.
Suas sombras mentem
Olhe, me diga, por que minha chave encaixa na fechadura?
Toni Morrison

Kitty Paranaguá, Sem título #3 (da Série Tempo Presente), 2018, Pigmento sobre papel de algodão, 60 x 80 cm

A estranha sensação de estar numa fenda, de um lugar que não reconhecemos, mas que sabemos estar inseridos, como a casa descrita pelo trecho de abertura de Home, romance de 2012 de Toni Morrison. Ouso dizer que sejam em lugares como este, um bom espaço para exercitarmos um pouco da nossa melancolia e adentrarmos com todo o corpo os espaços cedidos pelos artistas, afinal, nas fendas também acontecem os encontros.

Pablo Ferretti, Precipitação Paisagem, 2018, Óleo e spray sobre tela, 100 x 90 cm

Pequenos Vestígios de Melancolia
Coletiva com trabalhos de Andrey Zignnatto, Daniel Jablonski, Jordi Burch, Pablo Ferretti, Kitty Paranaguá e Renata Pelegrini. Curadoria Cadu Gonçalves.
Abertura 17 de agosto, 14h às 17h
Até 29 de setembro
FUNARTE – Alameda Nothmann, 1058
Campos Elíseos, São Paulo

Renata Pelegrini, Sem título, 2017, Acrílica e grafite sobre tela, 90 x 70 cm

 

 


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