O enigma artístico de Stephan Doitschinoff, por Daniel Rangel

23 de October de 2019 • Crítica, ensaio, Exposições, Stephan Doitschinoff

Stephan Doitschinoff, Homem Apropriado, 2018, Grafite sobre papel, 122 x 75 cm (detalhe)

Por Daniel Rangel *

A trajetória artística de Stephan Doitschinoff, marcada por profundas imersões cíclicas, está vinculada às experiências pessoais vividas desde sua infância. Uma obra com influências formais da pop art e do surrealismo, que é estruturada por um vocabulário singular.

Stephan recorre a um léxico iconográfico particular inspirado em símbolos históricos, religiosos, políticos, filosóficos e ambientais, para conceber desenhos, pinturas, esculturas e instalações. Uma escrita visual carregada de significados criptografados por meio de uma literatura imagética fantástica acerca da contemporaneidade.

Stephan Doitschinoff, Panoptic Wave, 2017, Acrílica sobre tela, 230 x 180 cm

Desde 2013, o artista não realiza uma exposição individual em São Paulo. Ao longo dos últimos anos, participou de coletivas no Brasil e no exterior, como a Bienal de Curitiba, em 2015, e “As Above, So Below. Portals, visions, spirits and mystics”, em 2017, no Irish Museum of Modern Art, na Irlanda, ambas com temas relacionados à espiritualidade.

A temática religiosa foi, provavelmente, a mais explorada ao longo da história da arte. Por séculos, os escritos sagrados eram a única válvula de escape para a criação artística além da busca pela reprodução fidedigna da realidade.  Na cena contemporânea, após passar um tempo marginalizado, o tema volta, aos poucos, a vir à tona na produção de artistas expoentes.

No passado, além da abordagem religiosa, havia uma relação entre arte, alquimia e religião, consideradas mágicas e capazes de transformar a realidade. O pintor holandês Piet Mondrian, conhecido pela relação com a teosofia de Madame Blavatsky, dizia escutar “um som interior (Inner clunk)”, enquanto pintava. Antes dele, a produção não-figurativa da sueca Hilma Af Klint, figura hoje considerada seminal para o movimento abstrato, estava atrelada a um espírito que a artista incorporava.

Stephan Doitschinoff, As Virtudes da Idolatria, 2018, Acrílica sobre tela, 232 x 194 cm

No Brasil, podemos destacar o trabalho de alguns artistas alquimistas, cujas obras perpassam por uma temática energética que se desdobram em pesquisas poéticas individuais potentes. Uma parte destes resgata questões ancestrais com olhares contemporâneos, sobretudo ligados à religião africana, como Ayrson Heráclito, Tiago Santana, Moisés Patrício, Nádia Taquari e Ana Beatriz Almeida. Outros produzem obras misteriosas, carregadas de referências diversas ressignificadas por códigos próprios, a exemplo de Artur Bispo do Rosário, Tunga, Bene Fonteles, Ernesto Neto e do próprio Stephan.

Atualmente, esta relação vem acompanhada de outras questões vinculadas ao momento presente. O lugar de fala, a intolerância religiosa, a situação política, os direitos humanos, o meio-ambiente, a diversidade de gêneros e as novas mídias sociais da internet são alguns destes temas. Stephan se coloca como um filósofo visual observando os movimentos planetários e sugerindo caminhos por meio de suas obras semânticas, para que ele e outros possam tentar trilhá-los algum dia.

A mostra “Estaremos Aqui Para Sempre” apresenta um recorte pontual das distintas séries que o artista vem desenvolvendo nos últimos anos. Além dos temas religiosos e ligados à espiritualidade, presentes desde o início de sua trajetória, as obras aqui apresentadas incorporaram questões políticas, filosóficas e ambientais. Assuntos emergentes das últimas décadas, como o consumismo de massa e a preservação da natureza, são tratados simultaneamente com temáticas bem mais atuais, como a pós-verdade e o poder de manipulação das religiões. Um amálgama que coloca o espectador diante de um conjunto de informações que parecem inalcançáveis, assim como “as escadas que levam ao céu”, um dos ícones recorrentes em suas obras.

Saiba mais sobre Estaremos Aqui Para Sempre, aqui

A produção de Stephan Doitschinoff definitivamente não está atrelada somente ao momento contemporâneo, conecta-se também ao passado e ao futuro. Temas, estilos e processos presentes na história da arte cruzam com estratégias da internet e das religiões fundamentalistas. Um trabalho formalmente potente, cercado de mistérios e segredos de um artista-alquimista, cuja obra é um testamento pessoal e ao mesmo tempo universal, sem lugar ou tempo definidos, para sempre e aqui.

 Um vocabulário em desenvolvimento.

 O desenho de Jurema Dourada foi concebido em 2012, entretanto, a pintura aqui exibida, é de 2017. A obra integra a série “Novo Asceticismo”, na qual o artista se apropria de símbolos históricos e religiosos para criar um vocabulário próprio.

Stephan Doitschinoff, Jurema Dourada, 2017, Acrílica sobre tela, 198 x 118 cm

Uma semântica que é explorada em várias camadas em As Virtudes da Idolatria, de 2018. Imagens bíblicas e mitológicas se misturam à oferendas da umbanda, plantas psicoativas e ícones inventados pelo artista criando uma espécie de cosmogonia conflitante que parece anunciar uma almejada pós-nova-era.

Na exposição, o desenho e a pintura de As Virtudes da Idolatria, expostas lado a lado, revelam o processo de criação e a fluidez do traço do artista. Apesar de ser conhecido sobretudo pelas pinturas e instalações, as obras de Stephan, independente do suporte final, sempre surgem com o lápis sobre o papel.

Outros dois desenhos expostos são O Homem Apropriado e Três Mundos, em novas versões completas,  realizadas em 2019, de acordo com as pinturas originais, de mesmos títulos, datadas respectivamente de 2008 e 2013.

Interventu, 2017, Madeira queimada, parafina, latão, cobre e tecido, Dimensões variáveis (detalhe)

Interventu, instalação comissionada pelo Irish Museum of Modern Art em 2017, também é estruturada por símbolos religiosos, como vestidos de noiva e ex-votos, no entanto aqui se intensifica a mistura de ícones apropriados com inventados.

A versão apresentada na exposição coloca o público em confronto direto com o alfabeto imagético que o artista vem criando nos últimos anos. Outra característica da série é a omissão de personagens antropomórficos revelando uma aura fantasmagórica que se torna uma espécie de portal.

Surgem novas abordagens, práticas e materiais. A madeira, a parafina, o tecido e o latão são utilizados em Interventu e ressaltam a dimensão escultórica do trabalho de Stephan, que apresenta ainda algumas peças inéditas, desdobramentos da série, como os livros de parafina.

A pintura Panoptic Wave, e o vídeo Marcha ao Cvlto do Fvtvrv, registro audiovisual de uma de suas performances, completam a mostra. Obras que integram o “Cvlto do Fvtvrv”, projeto mais audacioso do artista, no qual enfatiza, por meio de estratégias religiosas, questões políticas e relacionados à pós-verdade, tão presentes no debate atual.

Os trabalhos deste enigma artístico seguem como misteriosas ações transdisciplinares que reúnem, além de obras que pertencem ao universo formal da arte, outras em suportes variados, provindos da comunicação de massa, como passeatas, as mídias sociais e até mesmo jogos de videogame.

* Curador e mestre em artes visuais pela USP

Mais sobre o artista

Stephan Doitschinoff (site oficial)
Instagram (@stephan_doitschinoff)

 


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