Reforma: canteiro de obras, o mundo em construção de Andrey Zignnatto

17 de July de 2019 • Andrey Zignnatto, Exposições, Notícias

Andrey Zignnatto, De todas, uma mesma terra (detalhe), 2016-18, tijolo de barro e pallet de madeira, 120 x 100 x 15 cm

Em Reforma: canteiro de obras, o artista expõe um recorte de sua produção mais recente, com trabalhos realizados no Brasil, Peru e Emirados Árabes.

O suntuoso e o escasso em meio a construções e ruínas. Dois mundos antagônicos que dividem o mesmo espaço. Ora fascinam, ora causam estranhamento. Com obras que surgem de elementos prosaicos, facilmente encontrados em olarias ou construções sob as mãos de operários, o artista Andrey Zignnatto convida o espectador a refletir sobre a relação instável e dinâmica que o homem estabelece com o meio que o cerca. Em Reforma: canteiro de obras, exposição que a Janaina Torres Galeria inaugura no dia 20 de março, o artista apresenta uma seleção de seus trabalhos mais recentes, produzidos e em diálogo com três diferentes culturas: no Brasil, no Peru e nos Emirados Árabes.

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A construção sempre fez parte da vida de Zignnatto. Na adolescência, foi assistente de seu avô, pedreiro no interior de São Paulo, em Jundiaí. Foi lá que aprendeu a manusear as ferramentas do ofício. Artista autodidata, fez da olaria seu ateliê e, não à toa, seu trabalho é permeado por materiais perenes. Para a mostra, o artista traz um conjunto de oito obras, parte delas da série Reforma, iniciada em 2016, além de quatro obras site specific.

Questionar as tradições

“No ato de me apropriar ou interferir em objetos e sistemas usados para construção deste mundo artificial, subverto as condições originais e busco caminhos de questionamento das tradições e da relação entre homem e mundo”, pontua.

De todas uma mesma terra: o tijolo e o gesto

O tijolo é peça recorrente em seu trabalho e surge para lembrar que mesmo diante da grandiosidade de uma construção, a unidade, aquilo que cabe nas mãos, é a medida do todo. Não por acaso, o objeto é protagonista no trabalho De todas uma mesma terra (2016/18) “O tijolo é mais que uma matéria-prima, é a viabilização do gesto, medida do espaço e elemento para pensar o embate entre contextos”, afirma o artista.

Por quase dois anos, Zignatto extraiu porções de terra de locais que testemunharam guerras e revoltas populares brasileiras, a exemplo do Quilombo dos Palmares (AL), maior centro de resistência negra do País, e Morro da Providência (RJ), onde está situada a mais antiga favela do Brasil. Com o material coletado, criou o tijolo que dá vida à obra.

Na mostra que apresenta em São Paulo, Andrey Zignnatto chama atenção para um espaço em constante transformação e sujeito a alterações e atrasos, tal como um local em reforma. Não por acaso, essa transmutação também se aproxima do campo da arte contemporânea – território tão efêmero quanto a vida. É neste ambiente impreciso e dinâmico que o artista revela as várias contradições sociais que surgem da relação entre operários e construtoras, em um universo que abarca de uma só vez vida e arte.

Andrey Zignnatto, Tapete de orações 1, 2019, saco de cimento de papel e tapeçaria, 80 x 55 cm

Em Tapete de Orações (2019), conjunto inédito de trabalhos em saco de cimento e tapeçaria, produzidos durante sua passagem pelos Emirados Árabes, o artista dá origem a obras que fazem referência a pequenos tapetes usados por devotos muçulmanos em suas preces diárias a Alá – ritual praticado inclusive por operários em meio a jornadas de trabalho extenuantes.

“Dubai é uma cidade marcada por um luxo extremo, influência clara de uma cultura ocidental contemporânea que ali se impõe. E, como não poderia deixar de ser, tal modernidade é colocada em embate direto com as tradições milenares da cultura árabe”, afirma o artista, sugerindo uma ressignificação do trabalho sagrado da sociedade local.

Andrey Zignnatto, Uma Casa Popular – Fração nº 1, 2017/18, Tijolo baiano, concreto e ferro vergalhão, 250 x 450 x 200 cm

Na instalação Uma casa popular (2019), construída no próprio espaço expositivo, Zignnatto ergue uma série de muros, frações do projeto de um programa habitacional brasileiro. Depois de levantadas, as paredes são vazadas. Delas, o artista retira os tijolos de barro, deixando aparente somente o cimento que as sustentou, atribuindo-lhes uma aparência ruinosa.

Neste processo, Zignnatto cria também Canteiro de obras (2019), tela de grandes proporções, marcada pela argamassa utilizada na criação dos trabalhos anteriores. Utilizada para proteger o chão da galeria, o quadro é suspenso e apoiado sobre blocos de concreto.

Em Fenda (2018), registros fotográficos de intervenções produzidas em um sítio arqueológico inca no Peru. Sobre falhas em construções milenares, o artista enxertou tijolos de barro de modo quase cirúrgico, devolvendo-lhes volumes que um dia foram retirados.

Andrey Zignnatto, Fenda #3, Pigmento sobre papel de algodão, 55 x 70 cm

Em diálogo e paralelamente à mostra, o artista é um dos destaques do espaço da Janaina Torres Galeria na 15ª edição da SP-Arte, que ocorre de 3 a 7 de abril, no Pavilhão da Bienal. Na ocasião, serão exibidos trabalhos de sua série Fissura (2018), composta por placas de cerâmica decorativas quebradas, encontradas em uma fábrica de tijolos de Huachipa, povoado a oeste de Lima, capital do Peru. Trabalhadas em formas geométricas, as placas fazem referência a brasões de famílias da aristocracia inca. Rachadas, as placas são recuperadas pelo artista, que faz uso de notas de dólares como matéria-prima para o rejunte dos fragmentos.

Andrey Zignnatto, Fissura 3, 2018, Cerâmica, massa epoxi e dólar, 40 x 40 x 2 cm

Sobre o artista

Natural de Jundiaí, no interior de São Paulo, Andrey Zignnatto nasceu em 1981. Artista autodidata, trabalha entre São Paulo e sua cidade natal, onde ainda reside.

Participou de diversos cursos e oficinas pela Associação dos Artistas Plásticos de Jundiaí, onde também atuou como professor entre 1999 e 2011. Em 2013, recebeu diversas premiações, como o Prêmio Honra ao Mérito Arte e Patrimônio, do IPHAN/MinC; o 18º Cultura Inglesa Festival e o Prêmio Aquisição do 45º Salão de Arte Contemporânea de Piracicaba. Em 2014, foi reconhecido com o Prêmio Funarte de Arte Contemporânea.

Ainda entre os anos de 2013 e 2014, participou do grupo de discussões de projeto Atelier Hermes, com acompanhamento dos artistas Nino Cais e Marcelo Amorim e, no ano seguinte, do grupo de discussões de projeto Atelier Fidalga, com acompanhamento dos artistas Sandra Cinto e Albano Afonso.

É presidente fundador da Associação Cultural Menorah e diretor do Circuito de Artes Visuais de Jundiaí; do Futuro – Salão Nacional de Artes Visuais – Arte Contemporânea e Novas Tecnologias; do Movimenta – Festival Nacional de Dança Contemporânea; e ainda diretor artístico  da Fluxus Cia de Dança Contemporânea.

Artista multidisciplinar, possui uma produção baseada em suportes diversos, entre esculturas, fotografias, instalações, vídeos e performances. Realizou exposições individuais na Sketch Galeria de Arte (2016), em Bogotá, na Colômbia; na Fundação Ema Klabin (2015) e ainda no Paço das Artes (2015), ambas em São Paulo. Em 2015, seus trabalhos integraram coletivas na Torre Santander e no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo; e na Caixa Cultural e no Museu da República, no Rio de Janeiro.

Andrey Zignnatto é um dos nomes selecionados para a BienalSur 2019 e artista convidado para a Residência Artística paralela à Bienal de Havana de 2019.

Reforma: canteiro de obras, de Andrey Zignnatto

Abertura: 20 de março, quarta-feira, 19h às 22h

De 21 de março a 27 de abril


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