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A história de uma vida em As Coisas, de Daniel Jablonski

21 de October de 2018 • Daniel Jablonski, Exposições, Notícias

Objetos repertoriados na instalação As Coisas, de Daniel Jablonski

Contar a história de uma vida a partir dos objetos acumulados ao longo dos anos é o mote da exposição AS COISAS, do artista Daniel Jablonski, que fica em cartaz de 17 de outubro a 15 de dezembro, na Janaina Torres Galeria, em São Paulo. O artista apresenta o resultado de uma longa pesquisa, iniciada em 2017, e parcialmente desenvolvida em residência de seis meses no Programa Pivô Pesquisa 2018, também em São Paulo.

Com interlocução do curador Leonardo Araujo Beserra, a obra pretende reconstituir — de forma quase detetivesca — a cronologia dos 33 anos de vida do artista, a partir de sua dimensão em aparência mais contingente: a de seus resíduos materiais.

Há tempos, Jablonski vem catalogando exaustivamente todos os seus pertences fora de uso, acumulados arbitrariamente desde seu nascimento até o presente dia. Os mais de 3000 itens vão desde roupas velhas a fotocópias de textos de faculdade, passando por objetos de cozinha, livros, catálogos, até fotografias de família e contas, recibos e boletos. Para além da esfera do consumo, esses objetos também servem como poderosos suportes narrativos.

Preferências musicais são gravadas em fitas cassetes e filmes favoritos em VHS. Ideias são registradas em guardanapos, hábitos alimentares em listas de compras e amores em cartões postais. Alguns objetos, ao contrário, evocam a lembrança de quem os ofertou, como brinquedos, roupas, relógios, e até mesmo móveis. Outros trazem ainda nomes próprios impressos e atestam algo sobre eles, como cartas, e-mails, boletins escolares, contas de luz, laudos médicos e passaportes.

Daniel Jablonski durante montagem da exposição As Coisas, primeira individual na Janaina Torres Galeria

Ao repertoriar e tornar públicos quase todos os seus objetos pessoais, o artista aponta para outras possibilidades narrativas no domínio da expressão pessoal. Diferentemente do que acontece em boa parte das autobiografias, que partem das lembranças (e esquecimentos) dos seus autores, em AS COISAS o artista se utiliza dos objetos para forçar sua memória em direções radicalmente imprevistas.

Trata-se de tentar compreender o que esses resíduos materiais obrigam a contar: onde estava ele quando comprou aquela camiseta? O que estava pensando enquanto lia aquele livro? Que tipo de criança foi ao jogar com aqueles carrinhos de brinquedo? Ao fazer a memória (e o esquecimento) passar pelo filtro do mundo exterior, a exposição propõe-se menos como o museu pessoal do artista e mais como um arquivo comum de uma geração compartilhada.

O caráter, em geral, trivial dos objetos repertoriados evidencia o caráter também trivial, e mesmo genérico, da vida do próprio artista. Esta nada tem de especial e surge aqui apenas como um “exemplo” para um jogo de identificação e diferença estabelecido pelos públicos: “eu tinha o mesmo álbum de figurinha”, ou “nunca fui a esse país”, etc. A possibilidade de transposição de um indivíduo a outro fica indicada no nome da exposição, a qual retoma o título de um romance do escritor francês Georges Perec, “As coisas: uma história dos anos sessenta”, de 1965. A própria ideia de se fazer uma listagem completa dos itens pessoais de um indivíduo foi tomada de um projeto (não-realizado) do próprio Perec, enunciado em um ensaio de 1977:

“Este pânico de perder meus rastros seguiu-se de uma fúria de conservar e classificar. Eu guardava tudo: as cartas com seus envelopes, ingressos de filmes, passagens aéreas, faturas, talões de cheques, prospectos, recibos, catálogos, convocatórias, jornais diários, canetas-marcadoras secas, isqueiros vazios e até mesmo boletos de contas de gás e eletricidade de um apartamento no qual já não vivia há mais de seis anos e, às vezes, passava um dia inteiro a triar e a triar, imaginando uma classificação que preencheria cada ano, cada mês, cada dia da minha vida”. (“Os lugares de um ardil” In Pensar / Classificar, 1985).

Ao tentar realizar um projeto alheio, AS COISAS clarifica aos públicos que qualquer um poderia empreender o mesmo trabalho de memória. Mas, ao mesmo tempo expõe também as dificuldades de tal empreitada: por mais que queiramos organizar nossa vida, por princípio, não se pode eleger um único critério que permita fazê-lo.

A convite do artista, o curador e escritor Leonardo Araujo Beserra, colaborará ainda com a exposição de duas maneiras: na abertura, Araujo disponibilizará ao público um conjunto de Censos sociológico-demográficos, respondidos como se fosse de Jablonski, a partir da análise dos mais de 3000 objetos apresentados. Próximo ao encerramento da exposição, Leonardo conduzirá uma conversa com o público, por ocasião do lançamento de uma publicação inédita, escrita e editada em colaboração com o artista. Esta deverá contar em detalhes a história de alguns dos objetos ali apresentados, do ponto de vista de seus usos e materiais.

Brinquedos da infância estão entre os mais de 3 mil objetos que compõem As Coisas

AS COISAS

Exposição individual de Daniel Jablonski

Abertura: 17 de outubro, das 19 às 22h

Em cartaz de 17 de outubro a 15 de dezembro de 2018

Visita guiada com o artista dia 17 de outubro às 18h

Endereço: Janaina Torres Galeria – Rua Joaquim Antunes, 177 – Sala 11, Pinheiros, São Paulo.

Seg a Sex, das 10h às 19h; Sáb 11h às 15h

Entrada franca

Mais informações: (11) 3064-1507 | contato@janainatorres.com.br

 

 


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