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A pintura aberta e incontrolável de Pablo Ferretti

18 de December de 2018 • Entrevista, Pablo Ferretti

Entre o onírico e o real encontramos as telas de Pablo Ferretti, artista nascido em 1974, em Porto Alegre, que reside no Rio de Janeiro e trilhou sua formação na Inglaterra, com mestrado no Royal College of Art, em Londres, e uma experiência de trabalho na mítica National Gallery. No seu caso, não se trata de uma biografia formal. Dono de um vocabulário pictórico culto, o trabalho de Ferretti transpira a sofisticação adquirida – e os estados de ânimo, eventualmente – do convívio com Turner e outros mestres. Que serviria de muito pouco sem a liberdade e a coragem de trilhar um caminho próprio e estimulante em pintura, como se apreende na entrevista com Ferretti, que apresentamos a seguir.

Pergunta: O que você pinta?
Pablo Ferretti:
O que faço não é diretamente representacional. Me interessa que no trabalho pictórico esteja aparente sua transposição, dentro de um processo de exploração. É justamente dentro desta imprevisibilidade que tento encontrar outra forma de lidar com as imagens. Adaptando aquela analogia conhecida, meu trabalho é como procurar um gato preto em uma sala escura usando tinta preta.

Sua formação se deu na Inglaterra. Impossível não pensar, diante de suas telas, em Turner, em Byron e Shelley, em um estado romântico, digamos, e alta intensidade de vida interior. Como vê essa interpretação?
Meu mestrado sim foi lá, onde morei por quase 10 anos. Além de estudar na Royal College cujo departamento de pintura é muito consolidado, trabalhei na National Gallery, com uma boa dose de Turner, entre muitos outros, claro. É interessante pensar em uma espécie de ressonância interior por via de uma observação ora profunda, ora desinteressada, mas não menos reveladora, de Turner e outros pintores europeus a que tive acesso, mas percorremos todas a referências que se movem em nossa direção perscrutando e pulando entre ramificações significativas e periféricas. De certa forma há um processo de sublimação que dá acesso a esta intensidade subjetiva, tanto no método quanto no resultado final dos quadros. Há calmaria também…

O artista diante de Sob as coisas VI, óleo sobre tela, 180 x 150cm, 2013

A figura humana – ou a sombra dela – se insinua em algumas  de suas telas. É isso mesmo que estamos vendo? Ou apenas uma impressão?
Sim, comecei pintando uma figura humana que invariavelmente precisava negociar seu lugar no espaço da tela, na superfície e na justificação dos mesmos. Ainda que utilizando imagens definidas, as representações são abertas e incontroláveis.

Retrato e paisagem se amalgamam em algumas telas. O efeito é claro, mas não tanto a intenção. Há alguma?
Muitas vezes a diluição destas figuras, alguns autorretratos, a maioria anônimas (sombras), tornavam-se horizonte, que é uma referência forte na história da pintura, inescapável, o horizonte é limite, paisagem, divisão. A forma como trabalho certos elementos é praticamente abstrata, mas me interessam as passagens, o ruído que silhuetas e horizontes provocam. Bem ou mal espelhamos uma referência antropocêntrica, assim como o horizonte pode ser uma manipulação deste ponto de vista e suas subjetividades

Pablo Ferretti, Formas de apagamento à vista, 2018, Óleo e spray sobre tela, 40 x 37cm

Sua pintura parece avessa a conceitos; parece estar mais preocupada com o efeito e a sensação. Você se sente à vontade no léxico da arte contemporânea? Ou trabalha com um outro tempo?
No que faço o tempo próprio da pintura importa, porque ela, contrariando muitas das minhas intenções e planos, toma rumos imprecisos, que demanda então serem lidos e retomados.  A materialidade da pintura tem a potência de sugestão, de atualização, não forçada, de refletir uma passagem, uma espécie de transmutação. Portanto, esta prática envolve uma atualização constante, um estar presente e trabalhar com o vir a ser, como precipitações, impressões, interpretações, etc. Da mesma forma, ela tem o poder as vezes de fechar-se sob um plano e não querer sair nem com enigmas…

Não há propriamente uma finalização nas suas pinturas. Fale mais sobre significados em aberto
Em um dado momento, o que há entre o fazer e o que uma pintura devolve, refaz ou desfaz, pode esgotar-se. Como se não houvesse mais espaço para projetar uma alteração que seja relevante ao todo da tela. Ou quando os intervalos que são momentos de observação tornam-se mais longos, até que não se retorna mais com o mesmo ímpeto (senão por uma série de erros e acertos que confundem-se). Por outro lado, gosto da ideia de poder retomar essa conversação, então um quadro pode ser revisto. Estamos constantemente redescobrindo o que fazemos, a própria matéria da pintura está em sua transformação, sempre. Tudo tem sua hora, com disrupções significativas e auto infligidas.

Pablo Ferretti, Luz negra III, 2015, Óleo sobre tela, 190 x 150 cm

Saiba mais

Pablo Ferretti (site oficial)
@pbferretti (instagram)

 


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