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O momento do mundo, da história e da arte de Heleno Bernardi

17 de August de 2018 • Entrevista, Heleno Bernardi

Heleno Bernardi, Sem título, Acrílica e spray acrílico sobre tela, 180 x 140 cm, 2018 (detalhe)

Ao superar o dilema abstração x figuração e escolher o locus – e o ethos – do urbano como território de investigação, Heleno Bernardi se insere entre os artistas mais potentes da atual geração. O que se manifesta, certamente, além da ousadia conceitual, no poder e encanto visual de obras que vão de intervenções site specific – como o projeto Cassino, no Rio de Janeiro, no final de 2017 – às suas pinturas recentes. Conversamos com Heleno sobre elas, que serão exibidas na SP-Arte, em São Paulo, entre 11 e 15 de abril, no nosso stand (A7).

Pergunta: Picasso, no cubismo sintético, adicionava alguns elementos / signos na tela, para situar o observador. Você quer o mesmo? Qual seu pensamento sobre figurativo x abstrato nesse conjunto de telas?
Heleno Bernardi:
Este é um ponto interessante pois apesar de não estar interessado diretamente na representação de uma paisagem, estes elementos acabam por invadir o campo geral, mais abstrato, propondo um jogo com o espectador. Mas ao mesmo tempo que eles indicam o contexto urbano, sempre são meio incompletos e rasurados. É como ouvir as notas iniciais de uma música e descobrir que se trata de outra. A abstração pura tem uma história potente e artistas importantes a elevaram a um grau máximo. Depois disso, não me parece mais relevante defender separações. Tentando situar a discussão em nossos dias, a convergência do real e do virtual é um exemplo de que não é possível mais fincar estas bandeiras. Quando andamos pela cidade e consultamos um mapa virtual no celular, e até com realidade aumentada, tudo se mistura e estamos nos dois lugares ao mesmo tempo. Esta é uma questão que impõe novos modos de relação com o espaço e acho que tem tudo a ver com abstração e figuração.

Heleno Bernardi, Sem título, Acrílica e spray acrílico sobre tela, 180 x 140 cm, 2018

Você transita entre diferentes meios e suportes. Qual o papel da pintura em sua obra?
Em trabalhos como instalações ou intervenções site-specific há um processo que passa geralmente por etapas: conceituação, pesquisa, preparação e execução. É um caminho que exige energia criativa mas onde também há uma demanda burocrática enorme e de organização. Já a pintura, da maneira como a pratico, aproxima a conceituação da execução. Ou, de outra forma, estão condensadas no fazer. O procedimento constrói a obra. Assim, a pintura para mim tem um pouco do que, em geral, é atribuído ao desenho.

Seu trabalho em pintura é relativamente recente. O que podemos esperar dele?
Comecei a mostrar pinturas recentemente, é verdade. Mas eu já vinha mexendo nisso há bastante tempo. As intervenções já tinham um certo pensamento pictórico. E não digo isso em relação à imagem residual das intervenções como fotografias e sim na estratégia espacial delas. Com estas pinturas a sintaxe dentro da qual me movo pode ter encontrado um outro vocabulário. E misturar estes vocabulários é uma possibilidade.

Heleno Bernardi, Sem título, Acrílica, spray acrílico e borracha sobre tela, 180 x 120 cm, 2018 (detalhe)

Por que a pintura ainda detém tamanha força? Qual o seu encanto?
Se a história da pintura é um peso para o artista, também é um desafio para o  observador. Talvez encontrar essa chave seja o tal encanto. Quando o observador acredita que está diante de algo que só poderia estar ali porque estamos neste momento do mundo, da história e da arte, ele se inclui. A pintura já chega com esta pergunta de maneira aguda, o que é tremendamente excitante.

Você fala de uma certa relação física do espectador com as suas telas. Que relação procura estabelecer?
A de um acontecimento.

Vertentes do expressionismo estão presentes nas telas, aliadas a certos elementos construtivos, que se aproximam do design. O que te interessa em arte?
Estes elementos estão nas pinturas porque estão no mundo e não só na arte.

Heleno Bernardi, Sem título, Acrílica, spray acrílico e borracha sobre tela, 180 x 120 cm, 2018

 


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