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Conversa com Renata Pelegrini

21 de April de 2018 • Entrevista, Exposições, Renata Pelegrini

A artista Renata Pelegrini, que abre sua primeira individual na Janaina Torres Galeria, em 5 de abril

Dona de um trabalho expressivo em artes plásticas, em que a linha, o desenho, o gesto, a tinta e a cor buscam compor cenários que oscilam entre a paisagem e a abstração, Renata Pelegrini é uma artista reflexiva e cuidadosa. Seus “lugares” refletem a busca serena por um lugar próprio no vasto universo do desenho e da pintura. Conversamos com ela sobre alguns pontos dessa trajetória, que pode ser vista em sua primeira individual na Janaina Torres Galeria, que abre no dia 05 de abril.    

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Pergunta: Embora a linha e o desenho sejam componentes marcantes de seu trabalho, a qualidade de sua pintura marca um território forte de atuação. O que significa pintar hoje para você?
Renata Pelegrini:
Talvez a força venha da linha, na verdade. Expressa em meu trabalho ou não, já que algumas vezes ela se torna menos preponderante, a linha é a base do meu pensamento; e foi o marco da minha instrução em arte. Ela organiza o desenho e a pintura que faço, e na prática, significa que a linha organiza o meu pensamento. Mesmo asssim, minhas pinturas e meus desenhos são autônomos: eu pinto sem desenhar previamente e quando desenho não tenho que pintar aquilo que esbocei. São processos que partilham da mesma base e também do mesmo suporte (papel, canvas, linho, acetato); colaboram para a “pintura”, usando a palavra que você escolheu. Eu nomeio o que faço de ‘exercício’, ou ‘tentativa’. Praticar minhas reflexões nesses ‘exercícios’ acho que significa unir diferenças e reunir possibilidades de investigação.

Renata Pelegrini, Sem título, 2015, Acrílica sobre tela, 120 x 100 cm

Já definiram suas imagens como “paisagens móveis”. Há uma certa instabilidade na sua forma, um oscilar entre a abstração e o figurativo, entre a linha e a massam de cor. É uma escolha racional (pergunta) quando você pinta, há um plano de obra, como uma construção?
Essas”tentativas” trazem já em seu eixo, o ensaio, a possibilidade de mudança. O “plano” é arriscado e aberto, despretensioso, eu diria, e esse fato me interessa: a disponibilidade para algo que poderá acontecer, o olhar para outro lugar onde eu possa mover. Sim, isso pode parecer instável, e também pode ser visto como libertador, exatamente porque é um gerador de novos caminhos, é um combustível. Nesse sentido, oscilar enter o que seja abstração e figuração, é uma consideração que produz pouco sentido no meu fazer pois parece-me um propósito bem menos aberto.

Renata Pelegrini, Sem título, 2016, Pastel, acrílica, giz, grafite e carvão sobre papel, 30 x 23 cm

A caligrafia japonesa é elemento de formação, está mais ou menos claro isso, nas estruturas em negro de certos trabalhos – bastante marcantes nos desenhos, por sinal. Entre o rigor japonês e a força gestual de um Francis Kline, onde você se situa?
Sim, a caligrafia japonesa, e também a chinesa me atrairam em certo momento. Esse olhar abriu nova compreensão para a relação do meu corpo com o instrumento, do instrumento com o suporte e do corpo em relação ao suporte. Está certo o comentário quando fala do papel. E tenho que lembrar que e o mesmo acontece com o canvas. Em ambos, o que me interessa é o vigor. Acho que Franz Kline e as caligrafias orientais me interessam nesse sentido também, por seu vigor. O nanquim, é o porto seguro nisso tudo, um dos poucos elementos estáveis nesse aprendizado oriental, eu diria.

Seu mundo não é sereno, como já disseram. Há muita tensão subjacente aos tons suaves e terrosos de suas telas – uma gestualidade irrompe a plenitude, além de intervenções marcantes e quase agressivas de cores fortes e de negro. Como você se aproxima da tela em branco (pergunta) É tenso o ato de pintar?
A tensão, se você a vê, é uma escolha. O meu trabalho não é uma transposição do meu estado de espírito do momento ou algo parecido. É uma escolha e não há drama nisso, o risco na prática do meu trabalho me interessa.

A arte se alimenta da arte, mas no seu caso é difícil apontar referências predominantes. A que artista, ou a quais, voce gostaria de prestar uma homenagem (pergunta) Por que?
Talvez a Van Gogh, um dos pintores pelos quais minha mãe se apaixonou. E como lembrança dessa paixão, havia duas reproduções emolduradas em papel, na passagem de nossa sala. Elas me olhavam todos os dias, vivazes e “movediças”. Era um estímulo que se fazia notar.

Renata Pelegrini, Sem título, 2016, Acrílica sobre tela, 120 x 100 cm

Mais sobre Renata Pelegrini
Renata Pelegrini – site da artista
@re_pelegrini (Instagram)
A nova paisagem nas telas de Renata Pelegrini – Cultura – Estadão


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