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Acendendo o corpo da cidade, por Renato Rezende

21 de July de 2018 • Crítica, ensaio, Heleno Bernardi

Intervenção Cassino, de Heleno Bernardi (foto: Beto Felício)

Entre arqueólogo e acupunturista, nas palavras de Renato Rezende, Heleno Bernardi promove intervenções urbanas singulares, “resgatando e valorizando objetos do passado que, uma vez destacados, iluminam nossa compreensão de nós mesmos” e “ativando com precisão, no corpo da cidade, um ponto nevrálgico, numa intervenção simples, mas que atua profundamente, liberando energia e possibilitando novas linhas de ação”. Leia a seguir o texto completo de Rezende sobre a intervenção Cassino, de Bernardi, e que integra o catálogo da exposição.  

Por Renato Rezende *

À primeira vista, diante de todo aquele dourado, parece que escutamos o som de “Tico-tico no fubá”, na inconfundível voz de Carmen Miranda, quase inaudível, como um sussurro ritmado. Não há som nenhum, apenas os ruídos normais de uma ruína urbana cheia de aberturas para a cidade; o farfalhar do vento nas copas das árvores, os barulhos dos automóveis não muito distantes, o chiado de uma ratazana que passa correndo num canto úmido da parede. Mas os espectros do que ali foi vivido, ou do que imaginamos que ali foi vivido, retornam de maneira vívida para quem se posta em silêncio diante daquele infinito luminoso, construído, na verdade, por uma tonelada de purpurina dourada lançada sobre a matéria crua do esqueleto de concreto que restou do antigo Cassino da Urca. Erguido em 1922 para a Exposição Internacional, que celebrou no Rio de Janeiro o centenário da independência do Brasil, o Hotel Balneário se transformou em casa de jogos na década seguinte e, apesar de ter funcionado por apenas treze anos, de 1933 a 1946, quando o presidente Dutra proibiu o jogo no país, o Cassino da Urca permaneceu no imaginário do brasileiro como um dos símbolos máximos do Rio de Janeiro enquanto cidade maravilhosa: um balneário solar, de extraordinária beleza natural, jovial e libertino, onde o carnaval, a alegria e a sensualidade pareciam imperar como reis absolutos. Considerado em sua época de glória como uma das melhores casas de shows do mundo, nos palcos e nos salões do Cassino, em suas luxuosas festas e camarotes, passaram astros e estrelas de porte internacional, como a já citada Carmen Miranda, Josephine Baker, Grande Otelo, Orson Welles… Além da elite política e financeira do país. Getúlio Vargas, no auge do seu poder, era um habitué. Ao som da música e no ritmo dos corpos dançantes, invocados como fantasmas pela obra de Heleno Bernardi, fortunas mudavam de mão e intrigas palacianas eram segredadas; e podemos ouvir ainda o som das bandas e dos risos, do ranger dos talheres e do rodar dos vestidos, do girar das roletas. Somos capazes de intuir, de alguma forma, o brilho efêmero de uma época (e também seu lado sombrio e corrupto) condensado no gesto do artista. Pensada sob essa perspectiva, a obra Cassino, de Heleno Bernardi, pode ser entendida como uma espécie de resumo do Brasil: ruínas de uma igreja barroca reduzida àquilo que desde sempre nos move. E conhecemos bem a densidade da escuridão no avesso de toda essa história de riquezas.

Heleno Bernardi, no antigo Cassino da Urca (foto: Beto Felício)

Podemos avaliar a potência de uma obra de arte contemporânea por sua capacidade de instalar e condensar em um único objeto (ou em poucos objetos) diversas camadas de sentidos e múltiplas abordagens interpretativas, inclusive interdisciplinares, sem procurar impor qualquer discurso ou indicar algum tipo de “verdade” ou fechamento de leitura. Deste ponto de vista, Cassino é uma obra especialmente potente. Heleno apropria-se de estratégias que lembram, por um lado, o trabalho de um arqueólogo, resgatando e valorizando objetos do passado que, uma vez destacados, iluminam nossa compreensão de nós mesmos; e, por outro, o de um mestre acupunturista, ativando com precisão, no corpo da cidade, um ponto nevrálgico, numa intervenção simples, mas que atua profundamente, liberando energia e possibilitando novas linhas de ação. Em sua intervenção urbana, como define seu trabalho, o artista, num só gesto, aciona dimensões simbólicas, temporais e espaciais do edifício do Cassino da Urca, local privilegiado dentro da história e do imaginário do Rio de Janeiro, ponto privilegiado do seu corpo físico e espiritual, e vivifica, sublima, comenta e levanta questões críticas sobre as dimensões ambíguas e complexas de sua razão de ser e legado: fantasias, alegria e exploração do vício; desejo, sedução e abuso de poder; glamour, beleza e efemeridade dos tempos e dos corpos que em grande escala continuam a determinar, como um jogo de azar, sempre com cartas mais ou menos marcadas, os meandros secretos e o destino de nossa sociedade. É também interessante que esta espécie de acerto de contas com o espírito do lugar se dê, como última atividade no que hoje chamamos de ruínas do Cassino da Urca, antes da restauração completa do prédio (mantendo suas características arquitetônicas originais), e de seu consequente retorno ao uso dos cariocas.

Artista singular dentro do rico contexto de produção da arte contemporânea brasileira, Heleno Bernardi inicia sua carreira no início dos anos 2000, ou seja, quando a própria modernidade e seus conceitos fundamentais já se apresentavam como ruína, e parece conciliar em seu trabalho, como nenhum entre nós, duas vertentes fortes da nossa recente história da arte: o legado da arte conceitual e engajada dos anos 1970, intelectual e refinada, mas quase imaterial, e a expressividade visceral e vigorosa, mas pouco reflexiva, dos primeiros artistas da geração 1980 a serem reconhecidos. O resultado, como se percebe em Cassino, é uma justa conciliação entre robustez e inteligência, entre matéria bruta e precisão, entre monumentalidade e conceito, entre gesto e linguagem. Tendo a cidade como elemento de inspiração e desafio, quase como um enigma, Heleno a enfrenta de igual para igual, de forma propositiva, utilizando-a frequentemente como suporte. Assim, apesar da leveza luminosa, quase etérea, de Cassino, a elaboração da obra exigiu o manejo de equipamento pesado e, consequentemente, um enorme esforço físico, do qual o artista jamais cogitou se furtar. Talvez, no entanto, seja justamente a transmutação de tanto suor, de tantas vidas e histórias invocadas, tanto de nossas dimensões pessoais como coletivas, que permita à obra de Heleno deslocar tão facilmente o material que a constitui para a beleza sublime de sua tradução em arte. Contemplando longamente Cassino, que faísca a cada instante de forma diferente, parecendo ganhar uma dimensão entre orgânica e estelar, a cada suave brisa, a cada mudança de luz, não posso deixar de ser remetido a um retábulo bizantino, enfim depurado de todos os seus discursos e imagens; como se todo excesso produzido pelo bombardeio de imagens do mundo ocidental, e especialmente no mundo contemporâneo, pudesse ser superado pela saturação também excessiva, mas leve e luminosa, e de certa forma redentora, de Cassino – daí talvez o poder hipnótico do trabalho.

* Texto publicado no catálogo da intervenção Cassino (Editora Circuito, 2017)

Mais sobre Heleno Bernardi

Página do artista (Janaina Torres Galeria)

Heleno Bernardi (site oficial)

Exposição Heleno Bernardi (Janaina Torres Galeria)


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