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O poder do vestígio: monotipias de Kika Levy

16 de November de 2018 • Crítica, ensaio, Exposições, Kika Levy


Por Anne Louyot *

Em Pra Te Ver Melhor, Kika Levy escolheu uma técnica milenar, a da impressão direta do objeto a representar em uma superfície sensível – nesse caso, samambaias no papel de gravura. Assim nasceram as primeiras imagens do mundo, como as mãos em negativo nas paredes das cavernas pré-históricas, e muitas outras que atravessaram a história da arte, da ciência e da técnica, desde o santo sudário até os moldes de corpo de Rodin, passando pelas máscaras mortuárias, os fotogramas ou as impressões digitais.

Em arte, as imagens obtidas com esse método foram consideradas durante muito tempo com desconfiança, porque pareciam desprovidas de uma ideia criativa, puras “imitações”, sem “invenção”. Mas ao entrar mais profundamente no processo, ao olhar com mais atenção, essas imagens são muito mais complexas que se poderia pensar. Como escreve o filósofo Georges Didi-Huberman, “com a impressão, oscilamos entre contato e perda, entre o ainda-vivo e o já-morto, (…) entre energia e decomposição”.

As samambaias que deixaram sua marca no papel existiram, as formas que vemos são o testemunho emocionante da enigmática unicidade de cada folha. O olhar toca o papel que tocou a folha. Não é uma ideia de samambaia, é uma relíquia de samambaia, que encerra algo de sua textura, seu cheiro, sua umidade, suas cicatrizes imperceptíveis.

A imagem prolonga uma presença vegetal que não se deixa reduzir aos códigos pictóricos da representação. Sua profundidade vem desse momento inicial – o contato, e também das camadas de tempo que as cavam. O tempo do crescimento da samambaia, da colheita, da preparação do papel, da entintagem, da impressão, e finalmente do olhar. E uma metamorfose e discreta, uma viagem que a artista leva com delicadeza, entre o presente da planta e o nosso.

Ao introduzir variações de cor ou de pressão, ela transforma esse vestígio em lembrança, mais ou menos precisa, mais ou menos persistente, mais ou menos luminosa.

Para o espetador, essas imagens falam de sobrevivência. A sobrevivência paradoxal da samambaia, a do seu entorno, a do planeta. Essa planta, uma das mas antigas do mundo, reflete e repete a constelação de relações da qual faz parte. Parece um rio com seus afluentes, uma terra quebrada pela seca, uma nuvem, uma pluma, um cristal, uma bactéria, uma árvore…. é só deixar o olhar mergulhar em suas ramificações.

Desapareceu a samambaia, mas a vemos melhor.

* Anne Louyot é pesquisadora e historiadora de arte


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