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Pra te ver melhor: monotipias de Kika Levy

16 de December de 2017 • Crítica, ensaio, Feiras, Kika Levy, Notícias

A artista Kika Levy, no ateliê de gravura da Oficina Cultural Oswald de Andrade. Foto: Nina Levy

Delicadeza e precisão. De posse desses dois atributos tão caros à arte, Kika Levy nos presenteia com monotipias reveladoras da natureza que nos cerca – e de novos caminhos de seu próprio trabalho. Fruto de sua residência artística no ateliê de gravura da Oficina Cultural Oswald de Andrade, que expõe até dezembro o trabalho da artista, Kika Levy trabalhou pela primeira vez em prensa de grandes dimensões. O resultado são folhas nada frágeis, mas poderosas – que resistem ao tempo e a um único olhar. Revelam-se aos poucos, numa beleza de amplos significados, que são elaborados pela curadora Ana Angélica Albano, no belo texto a seguir.

Veja as monotipias de Kika Levy clicando aqui. 

Kika Levy em seu novo habitat: folhas e a prensa de grandes dimensões. Foto: Roberto Seba

Pra te ver melhor

Por Ana Angélica Albano 

A profunda intimidade que Kika Levy tem com as plantas, permite-lhe dirigir-se a cada uma na segunda pessoa do singular. Aproxima-se delas com um delicado pedido de licença: “- pra te ver melhor…”

As lupas já foram grande aliadas, quando seu interesse estava voltado para plantas de pequeno porte e a auxiliaram na observação de detalhes ínfimos que deram passagem a desenhos diminutos, miniaturas de gravura, pequenas joias. E parecia confortável expressando-se neste formato, totalmente em acordo com sua natureza de observadora silenciosa.

Foto: Roberto Seba

Com a oportunidade de realizar a residência artística no ateliê de gravura da Oficina Cultural Oswald de Andrade, com uma prensa de grande porte, revela-se uma outra face da artista. O tamanho da prensa permite o uso de papel maior (80 x107cm).

Despede-se, então, das lupas, sai em busca de plantas que possam se mostrar à vontade em papéis desta dimensão e o passeio ao Parque Alfredo Volpi, área remanescente da Mata Atlântica no Morumbi, em plena cidade de São Paulo, torna-se parte de sua rotina. A cada semana seu olhar deixa-se capturar por diferentes texturas, formatos, nervuras e seleciona, entre a enorme variedade existente na mata, as folhas que serão levadas ao ateliê para serem melhor vistas…

Como Matisse já nos ensinara “a criação, para o artista, começa com a visão. Ver já é uma operação que exige esforço.” No esforço para ver melhor, a artista não recorre desta vez ao desenho, seu antigo aliado, mas à sua experiência de gravadora. Porém, ao invés de gravar, imprime a própria folha em sucessivas monotipias.

Foto: NIna Levy

Na primeira monotipia, a planta é colocada diretamente sobre o papel, que ao ser submetida à prensa revela seu relevo. Nesta etapa apenas a seiva colore algumas partes, quase uma aquarela que muda de tom conforme vai secando.

Na segunda, a folha é colocada sobre uma superfície entintada e depois coberta com o papel, que ao passar pela prensa, além do relevo, mostra a planta em negativo sobre o papel com cor.

Para a terceira monotipia o papel é colocado diretamente sobre a placa tintada onde a planta deixou sua marca, imprimindo, bem delineada, a estrutura da folha sobre um fundo de cor suave. Às vezes, o que resta desta impressão ainda pode gerar uma nova imagem menos nítida, mais sutil, quase uma recordação.

Ainda há a possibilidade de mais uma monotipia, imprimindo a folha, quando sai da superfície tintada, sobre o papel branco. E, como na etapa anterior, o processo pode ser repetido até o desaparecimento total da imagem.

Kika Levy, Samambaia II (3) (da série Botânica), 2017, monotipia e óleo sobre papel, 107x80cm_78,3×53,7cm

Embora a mesma planta se repita em quatro monotipias diferentes, cada imagem é única e, em cada uma se renova o desejo: pra te ver melhor.

Ora (direis) olhar plantas!

A supresa, no entanto, é que na procura de ver melhor seu objeto de trabalho, Kika enfrenta desafios, acolhe acasos, desaloja certezas, voltando o olhar para o seu próprio processo de criação, que se renova, renovando-nos….

Ana Angélica Albano, Primavera de 2017

Veja as monotipias de Kika Levy clicando aqui.

Kika Levy, Embaúba I (2) (da série Botânica), 2017, monotipia e óleo sobre papel, 107x80cm, 78,3×53,7cm

 

Pra te ver melhor – Kika Levy

Oficina Cultural Oswalkd de Andrade
Rua Três Rios, 363 – Bom Retiro – Cep: 01123-001 – São Paulo – SP
Abertura: 11 de novembro, a partir das 15h

 

Mais sobre Kika Levy

Monotipias de Kika Levy (série completa)

A terra e o fogo nas Paisagens Vermelhas de Kika Levy

Página da artista (Janaina Torres Galeria)

No ateliê: Kika Levy

KIka Levy – site da artista

Veja também

Kika Levy – Série Paisagens Vermelhas – gravuras (veja todas aqui)

Kika Levy, Sem título I, 2017, Gravura em metal, 40 x 40 cm

 

Kika Levy, Paisagens Vermelhas (série), Sem título III, 2017, Gravura em metal, 30 x 40 cm