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Sandra Mazzini, entre flores, mangas e urubus

23 de November de 2017 • Crítica, ensaio, Exposições, Sandra Mazzini

Sandra Mazzini, Sem título, 2017, óleo sobre tela, 150 x 180 cm

Por Ubiratan Muarrek *

Disse Cézanne: “Quando eu preciso julgar uma arte, eu levo minhas pinturas e as deixo próximas a um objeto feito por Deus, como uma árvore ou uma flor. Se os dois lados combatem, elas não são arte”. A frase, do Grande Mestre, serve, se não para um julgamento, certamente para uma avaliação do projeto artístico de Sandra Mazzini, talento da nova safra de pintores brasileiros, que a Janaina Torres Galeria expõe a partir de 21 de outubro, em São Paulo. Trata-se da primeira mostra individual da jovem artista.

Flores, folhagens, frutas e árvores abundam na produção recente de Sandra, em telas de dimensões várias que podem chegar a seis metros de comprimento. Vão da exuberância da mata tropical à linearidade das plantações de mangas e bananas, que retratam paisagens de fazenda no interior.

Como Paul Cézanne, no entanto – que, curiosamente, não é citado pela artista como uma referência –, a natureza é submetida, nas pinturas de Sandra Mazzini, ao crivo meticuloso – o olhar – da artista.

No caso, ao grid – à grade – modernista, numa profusão de retângulos que ora se interrompem, ora se comunicam, seja por meio de nuances, seja por meio de mudanças abruptas, tornando-se campos mais ou menos autônomos de luz e cor (vistos de perto, beiram a abstração).

Imagens são assim construídas e reconstruídas em múltiplos detalhes, num trabalho que cuida de cada retângulo como uma obra em si, variando ainda a perspectiva das telas, e o efeito de profundidade no ambiente pictórico.

Obtendo as imagens originais de pesquisa de computador, que serve como “natureza” para a artista, recolhendo reminiscências da memória (como as fazendas de sua infância), Sandra está interessada numa certa fragmentação contemporânea, e há quem identifique em suas pinturas, de fato, a geometria cibernética dos pixels – ou uma “manipulação fragmentada de natureza caleidoscópica”, como ela diz.

Pode ser. O Deus contemporâneo certamente é a tecnologia, o Google. Mas a quantidade de arte ruim – ou irrelevante, o que dá no mesmo – produzida em nome da fragmentação e pixelização da imagem nos dias atuais, conduzida, principalmente, pela fotografia, lança um manto de desconfiança sobre grids em geral, e pelas reais intenções e efeitos da pintura de Sandra Mazzini.

O ponto central é que a exuberância atingida pelos seus trabalhos dificilmente seria obtida, ou faria sentido, em pinturas de tamanho contraste pictórico, se não houvesse uma harmonia, ainda que caleidoscópica, no conjunto; ou, dito de outro modo, se não houvesse algum tipo de combate entre a artista, seu tema e principalmente, seu tempo.

Sandra Mazzini, Sem título, 2017, Óleo sobre tela, 150 x 180 cm

Voltando a Cézanne: como se aproximar de Deus (místico ou o cibernético) e suas obras a partir de uma linguagem que caminha para a inteligência artificial?

Pixels não bastam para desvendar o encanto e o mistério do contemporâneo das telas de Sandra Mazzini. Tampouco, a facilidade do tema, como miríades de flores (ora pro nobis) e folhagens tropicais.

Desvendar o enigma de um artista muitas vezes se dá pela análise dos seus desvios. Ou seja, capturar as arestas de sua produção, onde o incomum, ou o ainda não suficientemente explorado, está à espreita, revelando nervuras que nos ajudam a perceber o inconsciente atrás das reais intenções.

No caso da exposição Como os rios correm para o mar, com cerca de onze trabalhos da artista, o desvio está, de maneira, justamente, singular, na tela em que, sob o pano de fundo de uma sebe de ora pro nobis, reina a figura de um urubu.

Longe de conferir um caráter sinistro à ave, pousada sobre um tronco, com asas abertas que ocupam quase a totalidade dos 1,80 metros da tela, é sua magnificência e sua tensa majestade que captam o olhar e a atenção.

O efeito de tamanho contraste entre a figura (a ave) e o fundo (a sebe) equivale a um efeito 3-D. E, submetidas ao grid da artista, as asas da ave se estendem em penas longas e coloridas, vermelhos, cinzas e terrosos sutis, clareadas por uma iluminação vinda não se sabe de onde e que recusam a harmonia com as flores ao fundo, conferindo uma leveza difícil na representação, de maneira geral.

Sandra não sabe explicar ao certo a presença – a escolha – desse tema específico no rol de sua produção. Acredita que um urubu à frente de uma cerca viva de flores traz uma densidade simbólica que dá unidade ao conjunto.

Mas é precisamente na quase-falta de significado de uma pintura de ave tão emblemática – tempos sinistros vividos pelo País, e pelo mundo, é algo que vem à mente diante da tela – que ilustra tão bem o que Sandra Mazzini conseguiu de melhor com a arte que produziu até o momento.

Nas suas pinturas, flores são quase-flores; mangas, quase-mangas; urubus… quase-urubus? Entre o hiperrealismo e a herança cézzaniana, a temática de dias tanto alegres quanto tristes oscila a partir do seu grid.

É a luta constante pela supremacia – sobrevivência – da pintura que confere força e contemporaneidade à exuberância da obra de Sandra Mazzini. Eventualmente, a proximidade, ainda que em combate aparente, entre suas telas e os “objetos da natureza”, agora captados pelas lentes de Steve Jobs.

* Ubiratan Muarrek é jornalista e escritor

Mais sobre Sandra Mazzini:

Sandra Mazzini faz sua primeira individual, na Janaina Torres Galeria

A super-visão de Sandra Mazzini, por Sergio Romagnolo

Conversa com Sandra Mazzini (entrevista)

Página da artista – Sandra Mazzini (Janaina Torres Galeria)

Como os rios correm para o mar (página da exposição)

A visão poderosa de Sandra Mazzini, por Leda Catunda

Sandra Mazzini (@sandramazzinim) no Instagram