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No Ateliê: Heleno Bernardi

16 de December de 2017 • Ateliê, Heleno Bernardi

Se o locus da arte é elemento central na poética multimídia de Heleno Bernardi, não passa despercebido o fato de seu ateliê estar localizado num hospital psiquiátrico. No caso, o Hospital Psiquiátrico Nise da Silveira, na Zona Norte do Rio de Janeiro. Nesta entrevista, desvendamos um pouco da relação do artista com o local, além de reunir elementos sobre seus processos e interesses.

Pergunta: Como funciona pra você ter um ateliê dentro de um hospital psiquiátrico?
Heleno Bernardi: Aí existem duas situações paralelas. A primeira diz respeito à oficina de arte que conduzo como artista voluntário junto aos clientes do hospital e que é um trabalho naturalmente muito desafiador. Os frequentadores têm quadros clínicos bastante diversos entre si e é muito complexo estabelecer um programa de trabalho com eles. Procuro estar atento às possibilidades individuais e colaborar com proposições artísticas. Já o meu trabalho no ateliê não tem, diretamente, uma ligação com saúde mental. Mas deve haver contaminações que talvez eu nem perceba.

Qual a temática central dos seus novos trabalhos?
Tenho trabalhado a partir de uma relação física com a cidade – deslocamentos, desafios corporais, precariedade espacial, camadas de tempo, multiplicidade de solicitações, fluxos, ocupações, abandono. Mas não diria que é um tema. É mais um contexto a partir do qual venho descobrindo situações e procurando possibilidades de diálogo artístico.

Pinturas da exposição “Heleno Bernardi”, individual do artista na Janaina Torres Galeria (2017)

O seu processo se manifesta de maneira multimídia. Como funciona a decisão de transpor cada ideia para cada um destes suportes?
Quando estou desenvolvendo o conceito de um novo trabalho, não me preocupo muito com a maneira como ele vai se realizar. Claro que existem os desafios de cada suporte e sei que quase sempre tenho de começar do zero em questões técnicas e práticas para a realização. Assim, acabo não me orientando por uma linguagem específica mas também não me identifico exatamente com o termo artista multimídia, pois vira uma premissa em relação ao uso de meios variados.

Se você pudesse passar horas conversando com um artista que admira, quem seria?
James Turrell. O trabalho obsessivo dele na transformação de uma cratera de vulcão em ponto de observação da luz é assombroso. E o fato dele ter se tornado criador de gado para viabilizar esta façanha me deixa muito curioso. Arman, se estivesse vivo, pela força dos acúmulos e dos objetos queimados. James Ensor, sobre pintura. Tunga. Não tive a oportunidade de conhecê-lo, mais sei o quão transformadoras eram as conversas de artistas com ele. Nuno Ramos. Pelo trabalho absolutamente destemido.

O que você está lendo no momento?
Richard Serra – Escritos e Entrevistas. Sempre releio partes, especialmente os textos do próprio Serra onde se releva o quanto ele concentra e também limita seus interesses como artista.
Zeugma Livro dos Rastros, de Roberto Corrêa dos Santos. Um grande pensador, amigo e parceiro de trabalhos. Zeugma é um livro de “sentenças-impulso” como o próprio autor o apresenta.

Vista da exposição “Heleno Bernardi”, com o trabalho “Enquanto falo as horas passam” à frente (2017)

 

Mais sobre Heleno Bernardi

Página do artista (Janaina Torres Galeria)

Heleno Bernardi (site oficial)

Exposição Heleno Bernardi (Janaina Torres Galeria)

Três perguntas para Heleno Bernardi (sobre Apologia de Sócrates)

Magma, o rápido (e certeiro) golpe pictórico de Heleno Bernardi (vídeo)

Sobre ‘Enquanto falo, as horas passam’, de Heleno Bernardi

A polifonia urbana de Heleno Bernardi