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No Ateliê: Heleno Bernardi

16 de November de 2018 • Ateliê, Heleno Bernardi

Se o locus da arte é elemento central na poética multimídia de Heleno Bernardi, não passa despercebido o fato de seu ateliê estar localizado num hospital psiquiátrico. No caso, o Hospital Psiquiátrico Nise da Silveira, na Zona Norte do Rio de Janeiro. Nesta entrevista, desvendamos um pouco da relação do artista com o local, além de reunir elementos sobre seus processos e interesses.

Pergunta: Como funciona pra você ter um ateliê dentro de um hospital psiquiátrico?
Heleno Bernardi: Aí existem duas situações paralelas. A primeira diz respeito à oficina de arte que conduzo como artista voluntário junto aos clientes do hospital e que é um trabalho naturalmente muito desafiador. Os frequentadores têm quadros clínicos bastante diversos entre si e é muito complexo estabelecer um programa de trabalho com eles. Procuro estar atento às possibilidades individuais e colaborar com proposições artísticas. Já o meu trabalho no ateliê não tem, diretamente, uma ligação com saúde mental. Mas deve haver contaminações que talvez eu nem perceba.

Qual a temática central dos seus novos trabalhos?
Tenho trabalhado a partir de uma relação física com a cidade – deslocamentos, desafios corporais, precariedade espacial, camadas de tempo, multiplicidade de solicitações, fluxos, ocupações, abandono. Mas não diria que é um tema. É mais um contexto a partir do qual venho descobrindo situações e procurando possibilidades de diálogo artístico.

Pinturas da exposição “Heleno Bernardi”, individual do artista na Janaina Torres Galeria (2017)

O seu processo se manifesta de maneira multimídia. Como funciona a decisão de transpor cada ideia para cada um destes suportes?
Quando estou desenvolvendo o conceito de um novo trabalho, não me preocupo muito com a maneira como ele vai se realizar. Claro que existem os desafios de cada suporte e sei que quase sempre tenho de começar do zero em questões técnicas e práticas para a realização. Assim, acabo não me orientando por uma linguagem específica mas também não me identifico exatamente com o termo artista multimídia, pois vira uma premissa em relação ao uso de meios variados.

Se você pudesse passar horas conversando com um artista que admira, quem seria?
James Turrell. O trabalho obsessivo dele na transformação de uma cratera de vulcão em ponto de observação da luz é assombroso. E o fato dele ter se tornado criador de gado para viabilizar esta façanha me deixa muito curioso. Arman, se estivesse vivo, pela força dos acúmulos e dos objetos queimados. James Ensor, sobre pintura. Tunga. Não tive a oportunidade de conhecê-lo, mais sei o quão transformadoras eram as conversas de artistas com ele. Nuno Ramos. Pelo trabalho absolutamente destemido.

O que você está lendo no momento?
Richard Serra – Escritos e Entrevistas. Sempre releio partes, especialmente os textos do próprio Serra onde se releva o quanto ele concentra e também limita seus interesses como artista.
Zeugma Livro dos Rastros, de Roberto Corrêa dos Santos. Um grande pensador, amigo e parceiro de trabalhos. Zeugma é um livro de “sentenças-impulso” como o próprio autor o apresenta.

Vista da exposição “Heleno Bernardi”, com o trabalho “Enquanto falo as horas passam” à frente (2017)

 

Mais sobre Heleno Bernardi

Página do artista (Janaina Torres Galeria)

Heleno Bernardi (site oficial)

Exposição Heleno Bernardi (Janaina Torres Galeria)

 

 


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