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Conversa com Kitty Paranaguá

16 de December de 2017 • Entrevista, Exposições, Kitty Paranaguá

 São Paulo vai conhecer duas séries de fotografias que têm recebido atenção no Brasil e no exterior: Campos de Altitude e Copacabana, da carioca Kitty Paranaguá.  Com uma carreira estabelecida há mais de 20 anos, Kitty expõe pela primeira vez em São Paulo, abrindo também a programação oficial paralela da SP-Arte/Foto/2017. Nesta entrevista, Kitty fala sobre sua trajetória, sua ideia de fotografia e como vê as pessoas, as localidades e as transformações de seu cenário de vida e de coração.

As séries Campos de Altitude e Copacabana, de Kitty Paranaguá, estarão expostas na Janaina Torres Galeria, entre 22 de agosto e 30 de setembro de 2017, e na SP-Arte/Foto/2017 entre 23 e 27 de agosto (estande 24). Confirme sua presença clicando aqui.

Pergunta: Você fotografa a praia de Copacabana há dez anos. O que mostrar, além do que já foi mostrado, de um dos locais mais fotografados do mundo?
Kitty Paranaguá: Copacabana é um símbolo do Rio de Janeiro, cartão postal da cidade, em geral ela é vendida e mostrada desta maneira. Nasci lá. Por volta dos 25 anos morei mais 2 anos, quando escolhi este lugar para fotografar já tinha uma relação afetiva com esta praia. Faz parte da minha vida, caminhar na areia e mergulhar em Copacabana. É como um casamento bem resolvido de muitos anos, quanto mais intimidade, melhor a relação. Ando sempre com a minha máquina, muitas vezes passo meses sem fotografar; outras, fotografo muito. Depende da sintonia do momento. Para se fazer um bom trabalho é importante vivenciar este lugar, caso contrário, seu olhar vai ser sempre de estrangeiro. Não que seja ruim, mas para mim não funciona desta maneira. Acabei de chegar dos Glaciares, na Patagônia, nunca vi nada parecido com aquilo. Fotografei como turista, tenho certeza que para fazer algo diferente das milhões de pessoas que passam por lá, é preciso ficar um tempo, criar laços, aprender a ver. Copacabana, mesmo para mim, é diferente de outros projetos que tem um fim, ou que seguem outros desdobramentos. É um projeto de vida, acho que enquanto tiver energia, vou andar lá com a minha máquina. É um templo, o lugar que medito, que penso na vida, que me conecto com o mundo espiritual, que exercito meu olhar.

A série Copacabana acaba de ser adquirida pela Maison Européenne de la Photographie (MEP), um dos principais espaços dedicados à fotografia contemporânea. A que se deve, na sua opinião, esse interesse?
O FotoRio, encontro Internacional de fotografia do Rio de Janeiro, criado e dirigido pelo antropólogo Milton Guran, tem sido um lugar de difusão da fotografia brasileira. Neste Festival, estão sempre presentes curadores de outras partes do mundo. Com a França, em especial, esta parceria é muito forte. Hoje alguns fotógrafos brasileiros fazem parte do acervo da Maison Européenne de Photographie devido a este forte vínculo, estabelecido entre Milton Guran e o diretor da MEP, Jean-Luc Monterosso. Em 2014, no festival, os cariocas tiveram a oportunidade de ver a mostra Amor, Amor, Amor, um recorte na coleção da MEP, que trouxe nomes como Henri Cartier Bresson, Robert Doisneau e Duane Michals. Segundo Guran, a mostra se inseriu no contexto de uma parceria antiga entre o MEP e o FotoRio e cujo objetivo é apresentar obras referenciais da coleção do instituto francês – detentor de um dos mais importantes acervos de fotografia contemporânea – “amarradas” em torno de temas atraentes para o grande público. “Um pouco como tocar Mozart na Quinta da Boa Vista”, compara. Este vínculo agora está sendo construído com a China. Este ano, o FotoRio, recebeu duas exposições dos fotógrafos chineses Wang Weiguang e Zhu Hongyu e a visita do diretor do Festival Internacional de Fotografia de Pequim, que acontecerá em outubro de 2017. A exposição Campos de Altitude, que estava no CCJF, foi selecionada para representar o FotoRio neste Festival, cujo tema é Origem e Imaginação.

Kitty Paranaguá, Copacabana, Sem título, 2008 – 13 Pigmento sobre papel de algodão 30 x 40 cm 75 x 100 cm

Uma das marcas comuns de Copacabana e de Campos de Altitude é a expressividade. Te agrada uma fotografia forte, sem meios tons?
Em geral, penso meus trabalhos em Preto e Branco. Às vezes, no meio do caminho, o ensaio migra para cor, como aconteceu nas séries A Pele da Cidade e Vai e Vem. Com Copacabana, ele já nasceu PB, fotografado com filme e filtro vermelho, sempre de manhã bem cedo. Esta luz baixa e contrastada faz parte da minha maneira de ver a praia. Em Campos de Altitude, a casa ficava no escuro e a luz utilizada era a da imagem projetada. Era uma luz cheia de sombras, o que muitas vezes virava um quebra-cabeça, encontrar um espaço branco, sem muita interferência, para coincidir com a figura do retratado. Um detalhe que me chamou muita atenção no projeto é como as casas são coloridas, alegres e cheias de referências. O carioca mora em uma cidade cheia de luz e de contraste, sou uma fotógrafa daqui, e em geral, faço meus projetos na cidade, esta luz e esta luminosidade é incorporada na minha maneira de fotografar.

Campos de Altitude entra na casa de pessoas humildes, desvendando sua intimidade e seu interior. Qual ética deve ser perseguida em trabalhos assim?
Uma dos fatos mais determinantes na minha vida que me levou a ser fotógrafa, foi a possibilidade de me relacionar com pessoas que não fazem parte da minha vida cotidiana. Em uma viagem para conhecer o Brasil com amigos, no meio do caminho, cruzei com um jornalista paulista, e tive acesso a uma comunidade que se chamava Belo Jardim, no Nordeste. Não imaginava que seria fotógrafa, mas fui parar nesta cidade como fotógrafa contratada. Este fato mexeu tanto comigo que me ajudou a traçar meu caminho profissional. Voltando para casa, pedi demissão na agência de propaganda que trabalhava e fui fazer um estágio no Jornal do Brasil. O respeito pelo fotografado sempre fez parte da minha vida, não foi diferente neste caso.

Kitty Paranaguá, Campos de Altitude, Simone e Miguel, Ladeira dos Tabajaras, 2016, Pigmento sobre papel de algodão, 100 x 100 cm

Todo carioca é um nobre. Uma cidade são seus moradores… são frases que vêm à mente com Campos de Altitude. O que a orientou nesse trabalho?
O projeto inicial surgiu da vontade de documentar a cidade 450 anos depois da sua fundação. Como é o Rio de Janeiro hoje? Foi a pergunta que me fiz. Pensando no projeto, as ideias foram se juntando. A partir do encontro com a D. Jura, moradora do morro da Providência, quando fui fazer a foto da implosão do viaduto, o caminho que ia seguir ficou claro: poderia juntar o tripé “quem mora, como mora e onde mora”. Em uma viagem para o nordeste, tinha feito um embrião deste projeto, viajei com a Marion, uma jornalista que trabalhava também para uma revista de decoração, a nossa ideia era entrevistar e fotografar pessoas nas suas próprias casas. Fizemos algumas fotos no litoral da Bahía, mas não levamos adiante. Sempre tive muito prazer em fotografar arquitetura, mas sentia falta de gente, sempre me fazia esta pergunta: quem mora neste lugar? Em Campos de Altitude realizei este desejo de mostrar as casas e seus habitantes. Subia só, queria ter uma relação o mais íntima possível com os fotografados. Uma boa surpresa, foi a estética encontrada nas casas. Não interferi em nada, as casas eram fotografadas da maneira que encontrava, queria captar a alma dos moradores. Nossa casa reflete muito de quem somos. A cidade é feita sim pelos seus moradores, e dar para o Rio de Janeiro, neste momento tão conturbado da cidade, uma outra visão dos morros com seus habitantes foi o meu presente para celebrar os 450 anos.

Você foi fotojornalista, incluindo trabalhos com decoração. Sua virada para a foto-arte, de uma estética original, é singular. Qual foi seu principal desafio nessa virada?
Em 2000, vivi um Tsunami na minha vida pessoal; quando as coisas se acalmaram, me fiz muitas perguntas e resolvi ir atrás do desejo que tinha me levado para a fotografia. Passei então a buscar o que eu realmente desejava falar através das lentes. Desde 1979 trabalho como fotógrafa, aprendi muito trabalhando para para os arquitetos. Meu olhar foi bem influenciado por eles. O gosto pela cidade, a maneira de ver os espaços, a valorização das formas se refletem hoje na minha estética fotográfica.

O Rio de Janeiro tem saída? Como a fotografia e a arte podem ajudar?
O Rio de Janeiro está vivendo um momento bem complicado, vamos ter que trabalhar muito para mudar esta situação. Este convívio com os morros durante dois anos me deu esperança. Pessoas como a Mariluce, fotografada do alemão, que tem um projeto social com os meninos da comunidade, fazem a diferença. Acho que a única maneira de virar este jogo é com educação e oportunidade de acesso à informação. A consciência tem que ser coletiva, nos envolvermos neste projeto de reconstrução é a maneira de abrirmos novas perspectivas. A Arte é lúdica, ela alimenta a alma, gera questões, prazeres e desafios, amplia nossa visão. Hoje tenho uma escola de fotografia, o Ateliê Oriente, junto com o Paulo Marcos de Mendonça Lima, a Ana Dalloz e o Thiago Barros, é a maneira que estamos encontrando de fazer a nossa parte e difundir a fotografia. O Ateliê vem abrindo suas portas regularmente com eventos gratuitos com inscrições pela internet.

Mais sobre Kitty Paranaguá

Página da artista: Kitty Paranaguá (Janaina Torres Galeria)
Página da exposição Campos de Altitude, Kitty Paranaguá (Janaina Torres Galeria)
Kitty Paranaguá (site da artista)
Copacabana não engana mais ninguém, por Diógenes Moura
Ateliê Oriente

KITTY PARANAGUÁ: CAMPOS DE ALTITUDE 

Abertura: 22.08, terça-feira – das 19h às 22h
Período expositivo: de 22.08 a 30.09
Seg a sex – das 10h às 19h  e sábados – das 11h às 15h | Entrada gratuita
SP/Arte-Foto: estande 24 | 23.08 a 27.08

Confirme sua presença clicando aqui.