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Feco Hamburger mira o telescópio, que mira o universo

23 de November de 2017 • Crítica, ensaio, Exposições, Feco Hamburger


Feco Hamburger, Alma IV, Jato de tinta sobre papel de algodão, 40 x 60 cm

Por Agnaldo Farias *

Os limites espaço-temporais da nossa percepção, condenada ao que se alcança com os olhos e ouvidos confinados num horizonte circular e fincados no presente, geram como reação o fabrico de mapas e modelos de toda ordem.

Nada mais que a expressão de um desejo atávico pelo controle das coisas, sejam elas aéreas, territoriais, geográficas, políticas, corpos biológicos; o impulso transborda sobre o corpo do mundo, no que dele é visível e invisível, e vai muito além dele.

(veja obras da exposição de Feco Hamburger na Janaina Torres Galeria, aqui)

Descrever ou simplesmente nomear algo implica uma forma ainda que insubstancial de captura. Não se mapeia apenas o que se vê, mas mapeia-se para se ver melhor. Como explica Paul Valéry, em seu ensaio sobre Degas, “há uma imensa diferença entre ver uma coisa sem o lapis na mão e vê-la desenhando-a”.

ALMA – Experiência Mediada, nasceu do Atacama Large Millimeter and sub-millimeter Array – ALMA, o maior telescópio terrestre do mundo, formado por 50 antenas situadas a 5000 metros de altitude, no Chile.

Feco Hamburger colheu as imagens no próprio site do projeto e, em cada uma, interveio com números, equações e diagramas, a rigor a modalidade de informação visual produzida pelo próprio telescópio.

O artista olha dentro e fora do gigantesco dispositivo, enquanto este olha o universo.

* Em Mapas Cartas Guias e Portulanos, Perfil Cultural, Brasil, 2016


Feco Hamburger, Alma VIII
Jato de tinta sobre papel de algodão
110x167cm