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Marcia Thompson: o grau zero da pintura

23 de November de 2017 • Crítica, ensaio, Exposições, Marcia Thompson


Marcia Thompson, sem título, óleo sobre linho

Por Luisa Duarte *

Como já foi escrito, a obra de Marcia Thompson filia-se a uma vertente da arte que possui raiz no pós-minimalismo. Eva Hesse seria o exemplo maior de um nome representante desse período e cuja obra é uma inspiração para a artista.

Se a minimal, assim como o conceitualismo, buscava uma arte desencarnada, tendo no grid moderno sua âncora maior, os pós-minimalistas, como Hesse, Serra, De Maria, vão justamente doar uma carnalidade antes inexistente para a fatura da obra. O lastro do sujeito deixa vestígios e uma manualidade faz-se evidente. No trabalho de Thompson a base serializada e modular do minimalismo permanece, mas justamente para ser desviada, subvertida.

Em “Chromes”, exposição individual na Galeria Mercedes Viegas, pinturas, desenhos, objetos e vídeos, dão sequencia a uma investigação cuja origem se dá na década de 1990. Naquele tempo a artista começava uma pesquisa no campo pictórico, mas com um acento bem diverso de tudo o que vimos na chamada “volta da pintura”, ocorrida nos anos 1980. Se ali um neoexpressionismo dava as cartas e a paleta era nublada, os passos de Thompson iam na direção oposta.

Ao eleger somente o branco como cor de suas obras a artista dava o primeiro passo em seu método no qual menos é mais. O que vemos hoje é uma continuação daqueles tempos, com a diferença de que a presença da cor é assumida de forma decisiva. O partido pelo uso exclusivo do branco tinha como inspiração os “Achromes” de Piero Manzoni. Essa escolha auxiliava a artista em um dos pontos centrais de sua poética, qual seja, instaurar um grau zero da pintura, no qual nos deparamos com uma ausência total de narrativa, restando como que somente um DNA da pintura.

Mas note-se que caminhamos em um limiar sutil entre a arte desencarnada da minimal e aquela que vem doar temperatura, sensualidade, vestígio de carne para a obra de arte. Os blocos de tinta à óleo em caixas de acrílico, as diferentes massas de cor sobre tela crua, os pontilhados tortuosos que surgem quando a tinta ultrapassa telas vazadas, as pautas de cadernos delicadamente subvertidas, tudo isso, somado a um uso poderoso de cores – laranjas, azuis, vermelhos, amarelos – cria a tensão entre a experiência serializada, modular, e aquela da diferença; entre a distância da abstração e a proximidade da tinta que se torna pele, que se torna carne.

Cada um desses trabalhos é único. Todos se parecem, mas nunca são iguais. Se há geometria, a mesma é sensível, e não analítica, distante. As obras fazem uso dos códigos da grade, dos módulos, para ali realizar uma torção que aponta para um universo mais próximo da vida, com a sua incontornável dose de acaso e imprevisibilidade.

Valendo-se de um método insuspeito, que lança mão da repetição para instaurar a diferença, Thompson solicita olhos atentos para perceber as singularidades em meio ao que parece sempre igual.

Fiel ao murmúrio, e não ao estardalhaço que toma conta do mundo lá fora, esses trabalhos fazem do silêncio parte expressiva da obra. Como os intervalos numa composição musical ou o espaço em branco entre um verso e outro de um poema, é preciso saber escutar os intervalos, ler a cesura, para que possamos compreender o sentido do todo.

É justamente nas entrelinhas mais delicadas que habita o equilíbrio sedutor entre depuração e carnalidade evidenciado poderosamente em “Chromes”, e que revela-se a marca maior da obra de Marcia Thompson ao longo dos últimos vinte anos.

* Crítica e curadora de arte. Texto produzido para a exposição “Chromes”, da artista, em 2014, na Galeria Mercedes Viegas (RJ).