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Sobre ‘Enquanto falo, as horas passam’, de Heleno Bernardi

20 de October de 2017 • Crítica, ensaio, Heleno Bernardi

Por Roberto Conduru *

A série de intervenções recentes de Heleno Bernardi reafirma o processo firme, calmo e discreto com o qual ele vem constituindo uma poética artística. Independentemente das diferenças quanto aos elementos e meios por ele usados, Enquanto falo, as horas passam se conecta às suas obras expostas previamente. Assim, dá continuidade e amplia caminhos trilhados em trabalhos anteriores, ao confirmar certas opções e abrir outras frentes.

(Veja exposição de Heleno Bernardi na Janaina Torres Galeria, aqui)

Heleno continua a jogar preferencialmente com imagens do corpo humano. Ao se apropriar de imagens pretéritas, algumas de cunho ancestral, maneja arquétipos com largo alcance de sentido, superpondo tempos diversos. Referências antigas, remotas e atemporais, eruditas ou universais, que são embaralhadas a outras recentes e triviais. Contraposições que fazem o comum se tornar estranho, insólito, nessa obra que vem se delineando como jogo entre denso e rarefeito, drama e humor, baixa e alta cultura. Acúmulo de usos e remissões ao corpo que permite pensar como o artista põe seu corpo em suas obras, levando a refletir sobre como ele também as concebe, desde o início, como autorrepresentações mais ou menos veladas.

Além de intricado, reiterativo e algo autorreferente, o jogo de contraposições aos poucos armado por Heleno Bernardi também tem ampliado seus meios e espaços de ação. Se antes produziu obras de estúdio, recentemente os projetos exigiram ganhar as ruas, bem como sugeriram a oportuna ventura de nelas se perder. São, assim, intervenções urbanas com mídias diversas. A soma de fato transitório, registro e desdobramentos multimídia é expandida por Enquanto falo, as horas passam. Primeiro, em função da abertura à interatividade dos transeuntes com as peças dispostas em espaços de uso coletivo das cidades. Depois, devido à participação de Heleno, de outras pessoas e/ou de suas peças em performances correlatas, bem como outras intervenções com variadas mídias, que aumentam o alcance da interatividade em situações presenciais e virtuais.

Ao abrir seu trabalho a jogos intersubjetivos em diferentes situações urbanas, Heleno põe em jogo como pessoas em diferentes contextos culturais reagem a questões contemporâneas e atemporais. Entretanto, dissolver os elementos e modos dessas intervenções no mundo não parece ser um de seus objetivos, muito menos resolver a problemática social. Seja com as peças tridimensionais, seja nas mídias eletrônicas e impressas, a interatividade é circunscrita: tem limites e é intermediada por linguagem, tradição, história. Manipulações que são, contudo, capazes de gerar uma espécie de calor humano que parece se agregar às peças, as quais, agora, pela primeira vez, sobrevivem e, assim, partilham (disputam?) com as imagens a condição de obras.

Ao serem dispostos em lugares diversos da cidade como praças, o interior de um edifício de passagem e um parque público, seus corpos-colchão instauram uma situação paradoxal: a possibilidade de aconchego e afeto com seres inanimados e em lugares contemporaneamente vistos, sentidos, como lugares de exterioridade, impessoalidade, fluxos anódinos, desamparo, desabrigo. Trazem à mente tanto um imaginário humano arcaico quanto o caráter sempre lúdico, atual, fundamental ao viver, da interação dos corpos. Seja a brincadeira dos passantes com as figuras, seja a das pessoas entre si por meio dessas renovadas esculturas, seja a do artista à distância com todos eles, esse jogo corporal quer instaurar instantes afetivos e libidinais aparentemente perdidos, impossíveis, na cidade contemporânea.

Libido que conduz à problemática da potência. E faz ver o tempo como uma questão central nessa poética. Uma que não emerge apenas do confronto entre elementos e temas distantes, do choque entre tópicos antigos, contemporâneos e atemporais. É mesmo o transcurso do tempo que emerge de imagens insólitas. Duração que também significa perda de potência, pois o tempo enfraquece, traz o fim: manipula e destrói o corpo.

Entretanto, o tempo também traz o início, insufla, cria, constrói, faz crescer, acontecer, reiniciar. Tempo como um signo de potência que também é um desafio para o jogo de contrários a que se dedica Heleno. Tempo-falo como signo de (im)potência que é crucial para esse trabalho, que procura enfrentar tanto a fugacidade inexorável de tudo que é e acontece enquanto o mundo se processa e dele se fala, quanto a densidade cultural e artística acumulada historicamente, para alcançar um instante de diferenciação poética. Obra que se faz de maneira afirmativa, dizendo ser possível, ainda que de modo breve, potentemente ser. E parafraseando Ovídio: enquanto as horas passam, falo.

* Roberto Conduru é historiador da arte, professor no Instituto de Artes da UERJ.